É a mãe de todas as saudades.
Há saudades que visitam.
E há saudades que moram.
A saudade da mãe não bate à porta. Ela já tem a chave.
Mora no cheiro de uma comida, numa palavra que só ela dizia daquele jeito, numa roupa guardada, numa fotografia antiga, numa data qualquer que, de repente, deixa de ser qualquer.
Mãe, quando parte, não leva apenas a presença. Leva junto um pedaço do nosso lugar no mundo.
Porque enquanto a mãe existe, não importa quantos anos a gente tenha, ainda existe alguém capaz de olhar para nós e enxergar a criança que fomos.
Depois que ela se vai, continuamos filhos.
Mas filhos de uma ausência.
E essa talvez seja a parte mais difícil de explicar.
A gente aprende a viver. Ri novamente. Trabalha. Viaja. Comemora aniversários. Junta a família. Faz planos. Segue.
Mas há momentos em que tudo o que desejaríamos era poder contar alguma coisa para ela.
“Tu não sabes o que aconteceu…”
E então vem o silêncio.
A saudade da mãe aparece principalmente nas horas em que precisaríamos do colo que já não existe fisicamente, mas que o corpo ainda procura.
Porque o corpo tem memória.
Lembra do abraço.
Do cheiro.
Do jeito de chamar nosso nome.
Da preocupação exagerada.
Das broncas que hoje daríamos tudo para ouvir outra vez.
Com o tempo, a dor muda de lugar.
Não desaparece.
Aprende a sentar ao nosso lado.
E talvez seja isso que chamamos de seguir em frente: carregar com delicadeza aquilo que jamais conseguiremos deixar para trás.
Mãe não vira passado.
Vira raiz.
E raiz não aparece, mas continua sustentando tudo.
Por isso acredito que a saudade da mãe é a mãe de todas as saudades.
Porque todas as outras lembram alguém.
Essa lembra também quem nós éramos quando ela ainda estava aqui.
Receba outras colunas direto em seu WhatsApp. Clique aqui.
