Ainda chamam de “crime de honra”.
Como se honra pudesse morar no mesmo lugar que uma faca, um tiro, um corpo caído no chão.
Não pode.
Nenhuma mulher morre porque um homem “amou demais”.
Morre porque alguém acreditou que tinha sobre ela um direito que nunca teve: o direito de decidir se ela poderia continuar viva.
Ela terminou o relacionamento.
Ela disse não.
Ela escolheu outro caminho.
Ela quis ir embora.
Ela simplesmente deixou de querer.
E nada disso é sentença de morte.
Talvez uma das coisas mais perversas que ainda fazemos seja procurar uma explicação antes mesmo de lamentar a vítima.
“Mas o que aconteceu?”
“Ela estava com outro?”
“Ele descobriu alguma coisa?”
“Foi uma briga?”
Como se existisse uma resposta capaz de transformar assassinato em consequência compreensível.
Não existe.
Ciúme não é licença para matar.
Traição não é licença para matar.
Separação não é licença para matar.
Rejeição não é licença para matar.
E amor, definitivamente, não mata.
Quem ama pode sofrer.
Pode chorar.
Pode se sentir traído, abandonado, despedaçado.
Pode procurar terapia, os amigos, Deus, um bar, uma corrida de dez quilômetros ou uma sessão inteira reclamando da vida.
Mas vai para casa sozinho.
Porque não existe honra que precise ser lavada com o sangue de uma mulher.
Existe apenas uma pessoa que escolheu matar.
E, muitas vezes, uma sociedade inteira tentando descobrir o que ela fez para que isso acontecesse.
Talvez esteja aí a pergunta que precisamos parar de fazer.
A pergunta nunca deveria ser:
“O que ela fez?”
Mas:
“Por que ainda tentamos encontrar uma justificativa para quem decidiu matá-la?”
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