Eu sou do mar.
Não só porque nasci caranguejo, dessas que se escondem no casco quando o mundo aperta, mas porque meu corpo reconhece a praia como casa. Meus pés sabem o caminho até a beira da água sem que eu precise pensar. Basta sentir. Basta doer.
Quando a alma pesa, é pro mar que eu vou. E não precisa muito: uns minutos com os pés mergulhados na espuma, o vento bagunçando meu cabelo e aquele som constante, de vai e vem, que é oração sem palavras. O mar não pergunta nada, só acolhe. Ele ouve os gritos que não tive coragem de soltar, leva embora os pensamentos que já não me servem, e devolve uma paz que não se explica, só se sente.
É preciso salgar os pés — pra lavar a pressa, dissolver o medo, amaciar o coração. O mar é meu recomeço. Nele, eu desfaço os nós que trago dentro do peito.
E, sim, já chorei muito de frente pro horizonte. Não por tristeza, mas por gratidão. Por reconhecer que, mesmo depois de tantas tempestades, continuo de pé… ou melhor, de conchas e raÃzes.
Sou mulher de profundezas. Não me assusta o raso, mas é no fundo que me encontro. E o sal? Ah, o sal purifica. Cura.
Traz de volta o que a rotina tenta apagar: minha essência.
Então, se algum dia me procurar e eu não estiver, tente na beira da praia. Estarei lá, salgando os pés… e acalmando a alma.
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