“Se o problema não é meu, nem problema é.”
Que maravilha. Resolveram a complexidade da convivência humana com uma frase que cabe numa caneca.
O vizinho não dorme por causa do meu barulho? Sono leve é uma desgraça.
Minha brincadeira humilhou alguém? Falta senso de humor.
Uma mulher está sendo maltratada? Melhor não se meter.
Até que o barulho invade o meu quarto, a piada atinge a minha filha e a violência bate à minha porta. Aí, curiosamente, a sociedade anda muito omissa.
Tem gente que descobriu o amor-próprio e aproveitou para aposentar a consideração. Aprendeu a dizer “não”, mas esqueceu de aprender a pedir desculpas. Agora distribui grosseria com a tranquilidade de quem acredita estar cumprindo uma orientação terapêutica.
“Estou preservando minha paz.”
Está mesmo? Ou está deixando a conta do seu comportamento para os outros pagarem?
Claro que ninguém precisa transformar a própria vida num plantão de emergência dos dramas alheios. Há quem peça um ombro e, quando percebemos, já trouxe a mudança inteira. Colocar limites é necessário. Carregar tudo também adoece.
Mas existe uma diferença entre recusar uma mala e fechar a porta na mão de quem está caindo.
Posso não conseguir resolver a dor de alguém. Posso estar cansada, sem dinheiro, sem resposta. Ainda assim, consigo ouvir sem debochar, discordar sem humilhar e cuidar para que a minha liberdade não vire o tormento de outra pessoa.
O curioso é que os grandes defensores do “cada um com seus problemas” costumam encontrar nosso número com uma rapidez impressionante quando a vida aperta. Nessa hora, querem acolhimento, disponibilidade, compreensão. Querem justamente aquilo que consideravam exagero quando a dor tinha outro endereço.
Talvez a frase precise de uma pequena correção:
“Se o problema não é meu, não preciso assumi-lo. Mas continuo responsável pelo tipo de pessoa que sou diante dele.”
Dá menos certo numa caneca. Na convivência, ajuda bastante.
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