Segunda-feira, 26 de outubro de 2026
  • WhatsApp
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Youtube
  • Contato
Buscar
Fechar [x]

BLOGS E COLUNAS

Quando os pais viram um incômodo na agenda dos filhos

26/10/2026 11h41

Há abandonos que não precisam de portas fechadas. Basta um telefone que nunca é atendido.


É curioso como a vida funciona.


Quando éramos pequenos, nossos pais interrompiam o mundo para nos atender. Largavam o almoço no fogo, o trabalho pela metade, o sono pela madrugada. Bastava um choro, uma febre, um medo ou um simples “mãe!” para que tudo o mais deixasse de ser prioridade.


Mas alguns filhos crescem. E, junto com a independência, desenvolvem uma espécie de amnésia afetiva.


Esquecem quem lhes ensinou a caminhar. Justamente quando aqueles que os ensinaram começam a ter dificuldades para andar.


Agora são empresários, profissionais ocupadíssimos, donos de agendas importantes. Têm tempo para reuniões, viagens, academia, redes sociais e até para acompanhar a vida de desconhecidos pela internet.


Mas cinco minutos para telefonar à mãe? Impossível!


“Estou trabalhando.” “Depois eu passo aí.” “Hoje estou cansado.” “Qualquer dia a gente se vê.”


E o tal qualquer dia vai sendo empurrado para um calendário que talvez já não exista.


Engraçado. Quando os filhos precisavam, os pais também estavam cansados. Só que o amor não lhes permitia usar o cansaço como desculpa.


E há os que terceirizam até a consciência. Colocam os pais numa instituição, pagam a mensalidade e acreditam que o comprovante bancário substitui um abraço.


Não substitui!


É claro que existem famílias em que uma instituição de cuidados é necessária, digna e até a melhor escolha. O abandono não está no endereço onde os pais envelhecem. Está na ausência de quem deveria continuar presente.


Também não falo dos filhos que precisaram se afastar para sobreviver a relações familiares violentas ou abusivas. Parentesco não é licença para machucar.


Falo daqueles que receberam amor, cuidado e proteção e, quando chegou a hora de retribuir um pouco de presença, descobriram que estavam ocupados demais.


O problema não é a falta de tempo. Muitas vezes, é a falta de prioridade.


Um dia, o telefone deixará de tocar.


A cadeira ficará vazia. A voz que perguntava se você havia comido não perguntará mais. Ninguém vai reclamar da sua ausência, nem insistir para que apareça no domingo.


E talvez, naquele silêncio, você finalmente encontre tempo.


Tempo para olhar fotografias. Para sentir saudade. Para comprar flores. Para escrever homenagens emocionantes nas redes sociais.


Aliás, essa é outra ironia cruel da humanidade: há filhos que economizam abraços em vida e esbanjam declarações depois da morte.


Publicam fotografias com legendas comoventes, mas não conseguiram reservar uma tarde para conversar enquanto havia alguém para ouvi-los.


Não confundamos sucesso profissional com grandeza humana. De que adianta conquistar o mundo inteiro e abandonar justamente quem ajudou você a chegar até ele?


Pais não são eternos. E envelhecer não deveria significar tornar-se invisível.


Se você tem a felicidade de ainda poder abraçar seus pais, não espere uma data comemorativa, uma internação ou uma notícia ruim.


Ligue. Visite. Escute aquela história repetida pela décima vez.


Porque talvez, para você, seja apenas mais uma conversa.


Para eles, pode ser o melhor momento da semana.


E lembre-se: flores no velório podem enfeitar a despedida, mas jamais compensarão os abraços que você negou em vida.


Receba outras notícias pelo WhatsApp. Clique aqui e entre no grupo do Sul Agora.



SIBÉLE CRISTINA
Coluna atualizada de segunda a sábado
Sibéle Cristina Garcia é apresentadora do programa Mais Mulher na UniTVSC desde maio de 2008. Graduada em Pedagogia e Marketing. Pós-graduada em Sexualidade Humana e Sexologia. É especialista em Relacionamento Abusivo, comunicadora, terapeuta e encorajadora da liberdade feminina.
CARREGAR MAIS
Agora Sul
  • WhatsApp
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Youtube
  • Contato
Sulagora.com. Tudo o que acontece no Sul. Agora. © Todos os direitos reservados.
Política de Privacidade

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.