Há uma ironia cruel na história da humanidade: mulheres que precisaram lutar para conquistar direitos hoje usam a própria liberdade para questionar a liberdade de outras mulheres.
E o mais assustador? Algumas fazem isso com orgulho!
Nunca vi um homem organizando um movimento para retirar o direito de voto dos homens. Tampouco vejo multidões masculinas defendendo que seus semelhantes voltem a ser submissos, silenciosos e obedientes.
Mas mulheres? Ah, essas às vezes conseguem ser as fiscais mais implacáveis da vida de outras mulheres!
Criticam a roupa, o comportamento, a independência, a sexualidade, as escolhas e até o direito de pensar diferente.
E quando o assunto é política, a coisa fica ainda mais indigesta. Há quem confunda posicionamento ideológico com autorização para diminuir conquistas femininas. Como se os direitos das mulheres tivessem partido, religião ou dono.
Não têm!
O direito de votar, estudar, trabalhar, decidir sobre o próprio corpo e ocupar espaços de poder não caiu do céu. Foi conquistado por mulheres que enfrentaram uma sociedade inteira para que outras pudessem escolher seus próprios caminhos.
E aqui mora a contradição: há mulheres desfrutando da liberdade conquistada por suas antepassadas enquanto aplaudem discursos que pretendem restringir a liberdade das próximas gerações.
É como subir uma escada e, depois de chegar ao topo, começar a arrancar os degraus.
E não confundamos as coisas: sororidade não significa concordar com todas as mulheres. Discordar faz parte da democracia. O problema começa quando a divergência vira desprezo e a liberdade alheia passa a ser tratada como ameaça.
Afinal, o machismo não precisa necessariamente de um homem para sobreviver. Às vezes, encontra abrigo justamente em quem deveria reconhecê-lo.
O machismo também usa batom, salto alto, vestido elegante e até discurso de mulher empoderada.
E talvez a maior tragédia não seja uma mulher pensar diferente de outra.
É uma mulher acreditar que, para defender suas convicções, precisa diminuir os direitos de todas as demais.
Porque liberdade de verdade não é apenas defender aquilo que queremos para nós.
É compreender que a outra mulher também tem o direito de escolher uma vida que não se parece com a nossa.
E pensar que nossas avós lutaram tanto para abrir portas que algumas mulheres, hoje, fazem questão de fechar.
De preferência, por dentro!
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