Sexta-feira, 04 de abril de 2025
  • WhatsApp
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Youtube
  • Contato
Buscar
Fechar [x]

BLOGS E COLUNAS

O preço das escolhas

03/04/2025 10h56

José nasceu em um lar humilde, onde os bens materiais eram escassos, mas a verdadeira riqueza era abundante: honestidade, caráter, dignidade… Seus pais não precisavam de grandes discursos para ensiná-lo; bastava o exemplo. Com gestos firmes e silenciosos, mostravam-lhe que a retidão era o caminho mais correto a seguir.


Desde pequeno, José se destacava. Estudioso, disciplinado, respeitoso, conquistava a admiração de professores e colegas. Suas notas refletiam o esforço incansável; sua conduta inspirava confiança. Aos vinte anos, cursava a faculdade com uma bolsa integral e já brilhava entre os melhores. Quem o conhecia não hesitava:


— Esse garoto tem um futuro brilhante pela frente.


Nunca se deixou seduzir por vícios. Cuidava do corpo com o mesmo zelo com que nutria a mente e fortalecia o espírito, buscando equilíbrio em cada aspecto da vida.


Em um bairro distante da mesma cidade crescia João. Tinha a mesma idade de José e também vinha de uma realidade humilde. Mas sua casa era um reduto de desordem e abandono. Os pais, afogados nos próprios vícios, cambaleavam entre garrafas, brigas e palavrões. João cresceu nesse caos, absorvendo cada má influência. Antes de concluir o ensino médio, largou os estudos e se entregou ao álcool, ao cigarro, às drogas. Com o tempo, perdeu-se por completo e vivia sempre à beira do abismo.


José e João compartilhavam o mesmo mundo, mas pertenciam a universos distintos. Não se conheciam. Até aquela noite.


Era sexta-feira. Pouco depois das dez, terminou a aula de filosofia na faculdade de José. Ele guardou os livros na mochila e seguiu para o ponto de ônibus, caminhando tranquilo pela calçada, imerso nos sonhos que construía com tanto esforço.


Do outro lado da cidade, João passou o dia todo em um bar decadente, entorpecido por cachaça e cigarros de maconha. Entre risadas vazias e tropeços, sem controle sobre o próprio corpo, saiu do boteco. Quinze minutos antes das dez, seus olhos turvos notaram um carro parado, com a chave na ignição. Sem hesitar, furtou o veículo e acelerou pelas ruas, como quem desafia o destino.


Na avenida onde José caminhava, um carro desgovernado rompeu o silêncio da noite, perdeu o controle e invadiu a calçada. Um grito abafado. O impacto brutal. Um corpo ao chão. Sob as luzes frias da cidade, a vida cheia de promessas de José se apagou.


O motorista? João.


Dois jovens. A mesma idade. A mesma origem. Um caminhava para um amanhã brilhante; o outro, perdido, tornou-se a sombra que apagou um brilho.


E assim, em uma noite de sexta-feira qualquer, a irresponsabilidade moldada pelo abandono selou uma tragédia irreparável. João não destruiu apenas a própria vida — condenado a anos de reclusão —, mas também tirou a vida de alguém que ele sequer conhecia.


Não foi o acaso que os moldou, mas as escolhas. E, na raiz dessas escolhas, estavam os exemplos — ou a ausência deles — dentro do lar.


Histórias semelhantes a essa se repetem todos os dias. A irresponsabilidade e a desestruturação familiar não são apenas tragédias individuais, mas problemas sociais que reverberam por toda a sociedade. Uma pessoa sem direção na vida pode, em um instante, cruzar o caminho de outra que sempre seguiu a trilha certa e alterar para sempre o seu destino.


É verdade que nem todos estão fadados a repetir os maus exemplos do ambiente em que nasceram. Há muitos casos de crianças criadas em lares desestruturados que, por esforço próprio, superaram as adversidades e se tornaram homens e mulheres dignos de admiração. Da mesma forma, muitas pessoas que cresceram em ambientes saudáveis fizeram escolhas erradas e se perderam ao longo do caminho.


Mas, embora não seja uma regra absoluta, acredito que um lar estruturado, onde prevaleçam amor, valores e responsabilidade, é o alicerce mais sólido para formar indivíduos que contribuam para um mundo mais seguro e justo.


Receba outras colunas direto em seu WhatsApp. Clique aqui.



MACIEL BROGNOLI
Crônicas e contos
Maciel Brognoli é guarda municipal de Tubarão, graduado em Administração Pública, especialista em Segurança Pública e Gestão de Trânsito e escritor. Ocupa a cadeira n° 27 da Academia Tubaronense de Letras (Acatul) e escreveu quatro livros.
CARREGAR MAIS
Agora Sul
  • WhatsApp
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Youtube
  • Contato
Sulagora.com. Tudo o que acontece no Sul. Agora. © 2019. Todos os direitos reservados.
Política de Privacidade

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.