Chega uma idade em que a gente para de querer um corpo perfeito e começa a querer um corpo que nos leve longe.
Não é desistência da vaidade. É mudança de prioridade.
Durante muito tempo, ensinaram principalmente às mulheres a olhar para o corpo como se ele fosse uma obra permanentemente inacabada.
Sempre faltava alguma coisa.
Faltava emagrecer.
Endurecer.
Levantar.
Diminuir.
Aumentar.
Esticar.
Esconder.
A barriga precisava desaparecer, a celulite precisava ser combatida, o cabelo branco precisava ser coberto e cada ruga tratada como se fosse uma pequena tragédia anunciando o fim da juventude.
Até que a vida acontece.
E, de repente, você percebe que existe coisa muito mais importante do que entrar numa calça 38.
Você quer entrar inteira nos próximos anos.
Quer pernas que ainda caminhem pela praia.
Braços que consigam abraçar quem você ama.
Olhos capazes de contemplar um pôr do sol.
Mãos firmes para fazer aquilo que lhe dá prazer.
Um coração que continue batendo forte por pessoas, projetos, viagens e sonhos.
A maturidade muda o espelho.
Você começa a agradecer por aquilo que antes criticava.
A barriga que não é mais lisa.
Os seios que já desafiam a gravidade.
As marcas na pele.
As cicatrizes.
As rugas ao redor dos olhos denunciando que você riu muito — e pretende continuar rindo.
Porque chega um momento em que bonito mesmo é um corpo que funciona.
Um corpo que acorda.
Que caminha.
Que dança.
Que deseja.
Que sente prazer.
Que se recupera.
Que atravessa doenças, perdas, sustos e ainda encontra disposição para dizer:
“Vamos. Ainda quero viver muita coisa.”
Cuide dele.
Faça exercício, alimente-se bem, faça seus exames, passe seu creme, use seu batom, cuide do cabelo, vista aquilo que faz você se sentir bonita.
Mas faça tudo isso por amor, não por guerra.
Seu corpo não precisa ser seu adversário.
Ele é a casa que carregou você por todos os capítulos da sua história.
E hoje, quando me olho no espelho, já não pergunto tanto se ele está perfeito.
Minha pergunta é outra:
Corpo, até onde ainda podemos ir?
E espero que a resposta seja:
muito, muito longe.
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