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BLOGS E COLUNAS

Tia Marli chorou no defunto errado

22/09/2026 05h14

Toda família tem histórias que, mesmo acontecendo em momentos tristes, atravessam os anos fazendo todo mundo rir.


Na minha, tem uma imbatível.


Há muitos anos morreu Tereza, tia e madrinha da minha mãe.


O velório foi em Tubarão.


Na época, havia três capelas mortuárias no local — e, naquele dia, as três estavam ocupadas.


Minha tia Marli, irmã da minha mãe, veio de Florianópolis com meu tio Bernardo.


Agora preciso explicar quem era tia Marli antes de continuar.


Tia Marli sempre foi uma figura.


Divertida.


Engraçada.


Espontânea.


Daquelas pessoas que não precisam contar uma piada.


Elas simplesmente acontecem.


Pois chegaram ao velório.


Tia Marli desceu do carro, atravessou a rua apressada e entrou na funerária.


Não perguntou nada.


Não conferiu nome.


Não procurou parente conhecido.


Viu uma sala.


Viu um caixão.


E foi.


Entrou chorando, aproximou-se e jogou-se sobre o morto.


Desolada.


Chorando copiosamente.


Até que tio Bernardo chegou.


Olhou para o caixão.


Olhou para Marli.


Olhou novamente para o defunto.


E cutucou minha tia:


— Marli…


Ela continuou chorando.


— Marli!


— O quê?


— Esse corpo não é o da Tereza.


Minha tia estava chorando no defunto errado!


Eu fico imaginando a família do falecido olhando aquela mulher que ninguém conhecia entrar desesperada e se jogar sobre o caixão.


Devem ter pensado:


“Meu Deus… quem é essa? E de onde o falecido conhecia essa criatura?”


Tia Marli levantou.


Recompôs-se como foi possível.


E foi procurar a capela certa.


Quando finalmente chegou ao velório da tia Tereza, já não tinha jeito.


No meio da tristeza, nós rimos.


Rimos muito.


Porque família também é isso.


É chorar junto.


É se despedir.


É sentir a ausência.


E, às vezes, é descobrir que até no meio da morte a vida encontra uma brechinha para fazer graça.


Hoje essa lembrança tem outro peso para mim.


Há oito anos, tia Marli sofreu um AVC hemorrágico.


Aquela mulher tão divertida e engraçada já não consegue ser exatamente a mesma.


Mas quando lembro dela atravessando aquela rua, entrando na capela errada e chorando por um desconhecido com toda a emoção do mundo…


a minha tia Marli de sempre aparece inteira na minha memória.


E eu rio.


Com amor.


Com saudade daquela versão dela.


E com a certeza de que algumas histórias de família não deveriam morrer nunca.


Até porque, em algum lugar da eternidade, existe um homem que provavelmente ainda está tentando descobrir:


quem era aquela mulher que chorou tanto no velório dele.


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SIBÉLE CRISTINA
Coluna atualizada de segunda a sábado
Sibéle Cristina Garcia é apresentadora do programa Mais Mulher na UniTVSC desde maio de 2008. Graduada em Pedagogia e Marketing. Pós-graduada em Sexualidade Humana e Sexologia. É especialista em Relacionamento Abusivo, comunicadora, terapeuta e encorajadora da liberdade feminina.
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