Eu sempre fui muito apegada aos meus avós paternos, seu Sebastião e dona Martinha.
Desde pequena, adorava ficar na casa deles.
Meu avô era ferroviário aposentado e tinha um armazém na Rua Laguna, em Oficinas — que naquela época a gente chamava simplesmente de venda.
Mas havia outra atração na casa dos meus avós.
Eles tinham uma televisão enorme, colorida, da Telefunken.
Hoje isso não significa muita coisa.
Naquela época?
Era praticamente um cinema particular.
Pouca gente tinha televisão a cores, então nos fins de semana a família se reunia para assistir televisão.
E um dos programas obrigatórios era o Chacrinha.
Ah, o Chacrinha…
E, principalmente, as chacretes.
Elas apareciam com aqueles maiôs cavados, rebolando, dançando, exibindo os glúteos numa época em que mostrar o joelho já podia render reunião familiar.
E meu avô assistia.
Atentamente.
Muito atentamente.
Aliás, atentamente talvez seja pouco.
Seu Sebastião assistia sem piscar.
Mas, como bom representante daquela moralidade masculina de outros tempos, precisava deixar claro que desaprovava profundamente aquilo que estava observando com tamanho interesse.
Então resmungava:
— Isso é uma pouca-vergonha!
E continuava olhando.
— Uma putada!
E continuava olhando.
As chacretes rebolavam.
Meu avô condenava.
E não perdia um rebolado.
Eu devia ter uns dez anos.
E aparentemente já havia nascido sem o dispositivo responsável por manter certos pensamentos dentro da cabeça.
Olhei para ele e disse:
— Não gosta? Troca de canal.
Silêncio.
Foi então que surgiu a voz de dona Martinha.
Minha avó estava ali, fazendo seu crochê como sempre.
Cabeça baixa.
Agulha trabalhando.
Parecia completamente alheia à discussão.
Parecia.
Porque vó Martinha podia estar contando ponto, fazendo correntinha, arrematando carreira…
mas não perdia uma conversa.
Sem nem precisar abandonar o crochê, decretou:
— É isso mesmo! Troque o canal.
Meu avô fechou a cara.
Ficou quieto.
E fez o quê?
CONTINUOU ASSISTINDO.
Não trocou de canal.
Não levantou.
Não perdeu o Chacrinha.
E, principalmente, não perdeu as chacretes.
Porque aparentemente aquela pouca-vergonha toda precisava ser fiscalizada até o final do programa.
Hoje, quando lembro da cena, dou risada.
Do meu avô reclamando enquanto não desgrudava os olhos da televisão.
Da minha avó fazendo crochê e colocando ordem na casa sem precisar sequer levantar a cabeça.
E daquela menina de dez anos que olhou para um adulto e disse o óbvio que ninguém queria dizer:
— Não gosta? Troca de canal.
Décadas depois, virei comunicadora.
Virei sexóloga.
Passei a vida falando sobre sexualidade, tabus, hipocrisias e comportamentos.
E às vezes penso que talvez tudo tenha começado muito antes do que eu imaginava.
Numa sala da casa dos meus avós.
Com uma Telefunken colorida.
Dona Martinha fazendo crochê.
Seu Sebastião indignadíssimo com a pouca-vergonha…
sem piscar para não perder nenhum detalhe.
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