Há uma hora em que a gente precisa parar de pedir explicações para quem já explicou tudo com o comportamento.
A pessoa exclui, desconsidera, combina e não cumpre. Você pergunta, ela desconversa. Você insiste, ela se irrita. No final, depois de todo esse trabalho, ainda sai com o título de complicada.
É um talento admirável: fazer a sujeira e reclamar do barulho da vassoura.
Mas nós também colaboramos. Vemos o que aconteceu, entendemos o que aconteceu e convocamos uma reunião para descobrir se aconteceu mesmo. Quem sabe, com as palavras certas, a pessoa admita. Quem sabe peça desculpas. Quem sabe finalmente perceba o nosso valor.
E lá vamos nós, preparar uma apresentação sobre o óbvio para uma plateia que já chegou decidida a não entender.
“Mas você precisa ouvir o meu lado.”
Claro. Conversar faz parte. Um desencontro merece esclarecimento, um erro merece contexto. Só que há situações em que já ouvimos o lado da pessoa tantas vezes que poderíamos representá-la em audiência.
Faltou tempo. Foi sem querer. Você interpretou mal. Era brincadeira.
Curioso como a brincadeira sempre encontra o mesmo alvo e a falta de tempo nunca atrapalha os interesses de quem alega.
Até que um dia a gente cansa. Sem uma grande explosão. Às vezes, o cansaço chega numa terça-feira, enquanto lavamos uma xícara. Lembramos de uma conversa e percebemos que não queremos mais ter aquela conversa. Nem outra igual. Nem a continuação.
Pronto. A água corre, a xícara fica limpa e alguma coisa se resolve por dentro.
A dificuldade vem depois: resistir à vontade de anunciar a decisão em vinte e sete parágrafos.
Queremos uma despedida tão bem escrita que o outro termine a leitura transformado. De preferência arrependido, com os olhos marejados e plena consciência da pessoa extraordinária que perdeu.
É uma fantasia tentadora. Na prática, o sujeito lê duas linhas, escolhe uma frase fora do contexto e encaminha para alguém dizendo:
“Olha o drama.”
Talvez possamos poupar a literatura dessa humilhação.
Podemos dizer o necessário, cumprir o que nos cabe e sair. Sem campanha para reunir aliados, sem indireta diária, sem ficar espionando se a nossa ausência já fez efeito.
Porque também existe uma maneira de ir embora e continuar morando na reação do outro.
Retirar-se exige aceitar que talvez não venha reconhecimento algum. A pessoa pode contar uma versão conveniente, chamar de exagero, dizer que você mudou. E você terá de seguir sem corrigir cada testemunha.
Dá trabalho abrir mão da última palavra. Principalmente quando temos uma excelente.
Mas há um descanso em perceber que a nossa decisão pode existir sem a concordância de quem a provocou.
Hoje, se preciso sair, procuro a bolsa, confiro se estou com a chave e vou.
Já passei tempo demais tentando fazer alguém entender por que eu merecia uma cadeira à mesa.
Agora, quando percebo que estou sobrando, libero o lugar.
A bolsa, pelo menos, vem comigo.
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