Tem adulto que consegue ouvir uma criança repetir uma música cheia de insinuações e achar uma graça. Mas, se a escola propõe uma conversa sobre corpo, limites e proteção, pronto: escândalo na reunião de pais.
A desenvoltura diverte. A orientação ofende.
Precisamos conversar sobre essa curiosa escala de preocupações.
Educação sexual na infância começa com palavras que alguns adultos ainda têm dificuldade de respeitar: “não quero”, “não gostei”, “não toque”.
Começa quando a criança aprende que seu corpo merece cuidado. Quando pode fazer perguntas sem receber uma bronca. Quando sabe que pode contar algo desconfortável sem ser castigada por isso.
Mas há quem prefira encerrar o assunto com a frase:
— Na minha época ninguém falava dessas coisas.
Pois é. E quantas coisas ficaram sem ser contadas?
O silêncio dos adultos nunca foi garantia de segurança para as crianças. Às vezes, foi apenas o lugar onde elas ficaram sozinhas com uma dúvida, um medo ou uma violência que nem sabiam nomear.
Família, escola, profissionais de saúde e sociedade precisam assumir essa conversa, cada qual com sua responsabilidade, com linguagem adequada à idade e disposição para ouvir.
Isso também exige rever hábitos que parecem inocentes. Obrigar a dar beijo. Mandar sentar no colo. Rir quando a criança demonstra desconforto. É difícil ensinar que ela pode estabelecer limites enquanto se exige que agrade aos adultos a qualquer custo.
Depois, queremos que saiba se defender. Antes, ensinamos que dizer “não” é falta de educação.
Talvez esteja na hora de a boa educação começar pelo respeito ao “não” de uma criança.
Porque o constrangimento de um adulto ao falar sobre o corpo pode ser resolvido com uma conversa. A criança não deveria pagar por ele com o próprio silêncio.
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