Há milhões de pessoas produzindo conteúdo no OnlyFans.
E centenas de milhões dispostas a consumir.
Os números impressionam, mas existe uma pergunta que quase nunca acompanha as estatísticas:
por que nossa indignação costuma recair sobre quem vende, e tão pouco sobre quem compra?
Quando uma mulher expõe o corpo em troca de dinheiro, rapidamente aparecem os julgamentos.
“Perdeu os valores.”
“Não se respeita.”
“Virou mercadoria.”
“Que exemplo está dando?”
Mas do outro lado da tela existe alguém pagando.
Alguém procurando.
Alguém assinando.
Alguém consumindo.
Alguém sustentando financeiramente aquilo que, muitas vezes, condena publicamente.
E talvez seja aí que esteja uma das grandes hipocrisias da nossa sociedade.
Nós adoramos discutir a mulher que se despe.
Quase nunca discutimos o homem que paga para vê-la nua.
Não se trata de transformar mulheres em vítimas nem homens em vilões. Mulheres adultas têm autonomia sobre o próprio corpo e homens adultos respondem pelas próprias escolhas.
A questão é outra:
não existe mercado sem consumidor.
Se milhões produzem porque centenas de milhões consomem, talvez seja intelectualmente desonesto discutir apenas a oferta enquanto fingimos que a demanda não existe.
Também existe uma contradição interessante no nosso tempo.
Nunca falamos tanto sobre solidão, dificuldade de construir vínculos, relações descartáveis e ausência de intimidade.
Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão fácil comprar uma simulação dela.
Você paga.
Escolhe.
Assiste.
Cancela.
Troca.
Não precisa conquistar.
Não precisa conversar.
Não precisa lidar com rejeição.
Não precisa sustentar a vulnerabilidade que uma relação verdadeira exige.
Talvez o fenômeno OnlyFans diga menos sobre mulheres mostrando o corpo e muito mais sobre o que estamos fazendo com o desejo, a intimidade e as relações humanas.
Porque vender nudez pela internet é apenas a parte visível da história.
A pergunta mais desconfortável está do outro lado da tela:
quem está comprando — e o que exatamente essas pessoas estão tentando encontrar ali?
Talvez não seja apenas sexo.
Talvez seja atenção.
Fantasia.
Controle.
Companhia.
Validação.
Fuga.
E talvez seja justamente por isso que os números sejam tão gigantescos.
Antes de apontarmos o dedo para quem está diante da câmera, seria interessante olhar também para quem está segurando o cartão de crédito.
Porque toda sociedade revela seus valores não apenas pelo que oferece.
Mas, principalmente, pelo que deseja consumir.
