É curioso como a sociedade ainda encontra um jeito de colocar sobre os ombros da mulher até a irresponsabilidade de um homem.
Quando uma mãe cria um filho sozinha, não demora para aparecer alguém com a sentença pronta:
“Mas também… tinha que ter escolhido melhor o pai.”
Como se existisse um exame capaz de prever abandono.
Como se, no primeiro encontro, viesse anexado ao homem um currículo informando se ele trocará fraldas, pagará pensão, estará presente nas noites de febre, participará das reuniões da escola e continuará sendo pai mesmo depois que deixar de ser marido.
A mulher é cobrada pela “escolha do pai”, mas o homem raramente é cobrado pela decência de ser pai.
E essa inversão é tão absurda quanto conveniente.
Porque, quando culpamos a mãe solo por ter “escolhido errado”, desviamos os olhos de quem realmente fez uma escolha: o homem que escolheu não assumir plenamente a própria responsabilidade.
Paternidade não deveria depender da qualidade do relacionamento com a mãe.
Filho não é ex-filho porque existe uma ex-mulher.
Relacionamentos terminam. Casamentos acabam. Paixões desaparecem.
Paternidade, não.
E ser pai também não se resume a depositar pensão. Dinheiro é obrigação material. Presença é responsabilidade afetiva. É saber o nome da professora, conhecer o medo da criança, lembrar do aniversário, acompanhar uma consulta, perguntar como foi a prova, aparecer quando prometeu que apareceria.
É muito fácil transformar a mãe em culpada porque ela permaneceu visível.
Ela está ali.
Cansada.
Sobrecarregada.
Levando ao médico.
Fazendo comida.
Pagando contas.
Educando.
Colocando limites.
Tentando trabalhar e criar um filho ao mesmo tempo.
Enquanto isso, muitas vezes, o ausente quase não é questionado.
E ainda perguntam a ela:
“Por que você escolheu esse homem?”
Talvez esteja na hora de mudar a pergunta.
Por que ele escolheu abandonar responsabilidades que também eram dele?
Por que ainda tratamos como extraordinário um homem que simplesmente exerce a própria paternidade?
E por que tantas vezes julgamos com mais severidade a mulher que ficou do que o homem que foi embora?
Culpar a mãe solo é uma das formas mais covardes de passar pano para a irresponsabilidade masculina.
Uma mulher pode ter errado ao escolher um parceiro.
Um homem não tem o direito de escolher deixar de ser pai.
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