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BLOGS E COLUNAS

A geração que atravessou dois mundos

26/08/2026 05h26

Minha geração, a 50+, talvez seja uma das que mais tenha experimentado transições em tão pouco tempo.


Nós escrevemos cartas.


E esperávamos dias pela resposta.


Ligamos de orelhão com ficha, depois com cartão. Decorávamos números de telefone porque não existia uma agenda eletrônica carregando nossa memória no bolso.


Alugamos filmes em locadoras. E escolher um filme para o sábado à noite era quase um evento: caminhar entre as prateleiras, ler as sinopses, torcer para que aquela fita ou DVD ainda estivesse disponível.


Rebobinamos fitas cassete com caneta Bic.


Gravamos músicas do rádio e ficávamos indignados quando o locutor começava a falar antes de a música terminar.


Tivemos agenda de papel, álbum de fotografias, máquina fotográfica com filme de 24 ou 36 poses — e só descobríamos se a foto tinha ficado boa depois da revelação.


E então o mundo começou a correr.


Pegamos o MSN.


O Orkut.


Vimos nascer o Facebook.


Aprendemos a mandar e-mail, depois mensagem, áudio, vídeo, emoji, direct. Saímos do telefone preso à parede para carregar o mundo inteiro dentro do bolso.


Mas existe uma coisa da qual eu sinto uma saudade danada.


Nós marcávamos encontros sem localização em tempo real.


E as pessoas iam!


Era simplesmente:


“Te espero às oito, na praça da igreja.”


Pronto.


Ninguém mandava localização.

Ninguém compartilhava trajeto.

Ninguém perguntava a cada cinco minutos:


“Tá onde?”


A gente estava indo.


E confiava que o outro também estaria.


Talvez por isso a minha geração tenha aprendido tanto sobre espera.


Esperávamos a carta.

Esperávamos a ligação.

Esperávamos revelar as fotografias.

Esperávamos o próximo episódio da série.

Esperávamos encontrar alguém na praça da igreja.


Hoje temos tudo imediatamente.


A mensagem chega em segundos. A fotografia aparece na mesma hora. O filme está disponível quando quisermos. Podemos saber exatamente onde alguém está.


Ganhamos velocidade.


Ganhamos tecnologia.


Ganhamos possibilidades que jamais imaginaríamos quando colocávamos uma ficha naquele orelhão.


Mas, às vezes, penso que perdemos um pouquinho da magia da espera.


Somos uma geração privilegiada porque conhecemos os dois mundos.


Sabemos como era viver antes da internet e aprendemos a viver dentro dela.


Tivemos Enciclopédia Barsa e Google.

Carta e WhatsApp.

Locadora e streaming.

Orelhão e smartphone.

Álbum de fotografias e Instagram.


Talvez sejamos uma espécie de ponte humana entre duas épocas.


E quando alguém da minha geração disser:


“Te espero lá na praça da igreja.”


Pode acreditar.


A gente vai.


Porque fomos criados num tempo em que palavra dada também funcionava como localização.


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SIBÉLE CRISTINA
Coluna atualizada de segunda a sábado
Sibéle Cristina Garcia é apresentadora do programa Mais Mulher na UniTVSC desde maio de 2008. Graduada em Pedagogia e Marketing. Pós-graduada em Sexualidade Humana e Sexologia. É especialista em Relacionamento Abusivo, comunicadora, terapeuta e encorajadora da liberdade feminina.
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