Jane Austen escreveu Persuasão há mais de duzentos anos.
E, aparentemente, continuamos cometendo os mesmos erros.
Mudaram os vestidos, os costumes, as carruagens viraram carros e as cartas viraram WhatsApp.
Mas a mania de dar palpite na vida amorosa dos outros continua vivíssima.
— Ele não é para você.
— Você merece coisa melhor.
— Eu, no seu lugar…
— Essa relação não vai dar certo.
E lá vamos nós, às vezes, entregar uma decisão íntima nas mãos de quem não vai viver as consequências dela.
Anne Elliot, protagonista de Persuasão, abriu mão do homem que amava porque foi convencida de que aquela não era uma boa escolha.
Oito anos depois, reencontrou o amor.
Só que reencontrou também uma versão mais madura de si mesma.
Talvez seja essa a grande provocação da história:
quantas coisas abandonamos não porque deixamos de querer, mas porque alguém nos convenceu de que não deveríamos querer?
E nem estou falando apenas de homens.
Quantas mulheres desistiram de uma profissão porque disseram que não daria dinheiro?
De uma viagem porque disseram que era loucura?
De começar de novo porque disseram que já era tarde?
De usar determinada roupa porque disseram que “não era mais para a idade”?
De amar porque alguém decretou que aquele amor não fazia sentido?
Conselhos são importantes.
Às vezes, inclusive, salvam nossa pele, nossa conta bancária e uns três anos de terapia.
Mas existe uma diferença enorme entre escutar quem nos ama e terceirizar a própria vida.
Porque quem aconselha vai embora para casa.
Quem fica com o “e se?” somos nós.
E o “e se?” é um hóspede inconveniente.
Ele aparece de madrugada.
Senta na beirada da cama.
E pergunta:
— E se você tivesse tentado?
A maturidade talvez seja justamente chegar ao ponto em que conseguimos ouvir todo mundo sem deixar de ouvir a nós mesmas.
Porque algumas escolhas darão errado.
Algumas pessoas também.
Alguns amores serão péssimos investimentos — emocionais, financeiros e, dependendo do cidadão, até capilares.
Mas que sejam nossos erros.
E também nossos acertos.
Jane Austen chamou seu livro de Persuasão.
Eu talvez chamasse de:
“A vida que quase perdemos tentando viver aquela que os outros achavam melhor para nós.”
Porque existem segundas chances.
Mas nem sempre.
E há uma coisa muito mais triste do que descobrir que fizemos a escolha errada:
descobrir que nem fomos nós que escolhemos.
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