Toda mulher tem um.
Não adianta negar.
Pode ser escondido no fundo da gaveta, atrás das camisolas bonitas e dos pijamas que aparecem nas fotos do Instagram. Mas ele existe.
O pijama da autoestima baixa.
Aquele tão velho que já deveria pagar IPTU.
O meu já passou da fase de roupa.
Virou patrimônio histórico.
Tem áreas desgastadas que lembram mapas geográficos.
A cor original desapareceu há tantos anos que hoje os cientistas trabalham apenas com hipóteses.
O elástico da cintura está aposentado.
As costuras resistem por pura teimosia.
E existe um furinho estratégico que aumenta misteriosamente a cada lavagem.
Mas ele continua ali.
Firme.
Forte.
Sobrevivendo ao tempo e às decisões questionáveis da minha vida amorosa.
O curioso é que ninguém compra um pijama velho.
Ele conquista esse título por mérito.
São anos de dedicação.
Anos de noites mal dormidas.
Anos de séries assistidas até de madrugada.
Anos de gripe, TPM, menopausa, coração partido e domingos chuvosos.
Ele esteve presente em momentos que nem os melhores amigos acompanharam.
Outro dia, olhando para aquele tecido cansado, pensei:
— Acho que está na hora de jogar fora.
Mas aí eu o vesti.
E imediatamente fui abraçada por uma sensação de conforto que nenhuma roupa nova jamais conseguiu reproduzir.
Porque o pijama da autoestima baixa tem uma função muito específica.
Ele não serve para seduzir.
Não serve para impressionar.
Não serve nem para atender à campainha.
Ele serve para aqueles dias em que você simplesmente desiste de ser uma obra-prima.
Dias em que você não quer ser elegante.
Não quer ser desejável.
Não quer ser inspiradora.
Só quer existir.
Comendo pipoca na cama e ignorando responsabilidades.
É por isso que ele permanece.
Porque, enquanto o mundo exige versões impecáveis de nós, aquele pijama aceita todas.
A mulher poderosa.
A mulher cansada.
A mulher apaixonada.
A mulher que acabou de discutir no grupo da família.
Todas elas cabem dentro dele.
Claro que existe um limite.
Se um dia o pijama começar a receber correspondência em seu próprio nome, talvez seja hora de aposentá-lo.
Mas até lá, ele seguirá cumprindo sua missão.
Porque algumas roupas nos deixam bonitas.
Outras nos deixam confortáveis.
E há aquelas raras peças que nos lembram que não precisamos ser bonitas o tempo todo para merecer descanso.
Mesmo que, para isso, estejamos vestindo algo que já deveria estar tombado pelo patrimônio histórico nacional.
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