Existe um talento social que me impressiona: transformar a irresponsabilidade de um homem em erro de uma mulher.
Ele abandona o filho.
Ela deveria ter escolhido melhor.
Ele não paga pensão.
Ela deveria ter escolhido melhor.
Ele some, não liga, não sabe em que escola a criança estuda.
Ela deveria ter escolhido melhor.
Daqui a pouco, vão exigir que a mulher apresente, antes do primeiro beijo, antecedentes afetivos, laudo de caráter e uma declaração autenticada de que o pretendente continuará sendo gente depois da separação.
Porque cobrar responsabilidade de um homem adulto parece trabalhoso demais. Mais fácil exigir clarividência da mulher.
Curiosamente, ninguém costuma perguntar ao pai ausente por que decidiu ter um filho se pretendia participar da criação com a mesma frequência de um eclipse.
Mas a mãe precisa explicar tudo. Por que engravidou, por que ficou, por que saiu, por que trabalha tanto, por que está cansada, por que perdeu a paciência.
O homem desaparece da rotina e ainda consegue permanecer fora do banco dos réus.
E quando aparece?
Ah, preparem os aplausos.
Buscou na escola: paizão.
Levou ao médico: exemplo.
Passou um domingo com o próprio filho: praticamente um candidato ao Nobel da Paternidade.
Ela faz isso há anos, entre trabalho, febre, boletos e noites mal dormidas. Chamam de obrigação.
Ele faz uma tarde. Chamam de evolução.
É uma régua tão baixa que, para passar por cima, basta levantar o chinelo.
E ainda existe a expressão “ele ajuda com os filhos”. Ajuda? São filhos dele ou um projeto beneficente da ex?
Pai não é voluntário. Não participa quando sobra tempo, quando a namorada permite ou quando a consciência resolve dar sinal de vida.
A separação encerra o casal. Não revoga a paternidade.
Mas há quem queira devolver as responsabilidades junto com a chave da casa e seguir solteiro, leve, disponível — enquanto a mulher fica com a criança, a mochila, a consulta, a reunião da escola e o diagnóstico público de que “não soube escolher”.
Até a sobrecarga vira elogio: “Você é uma guerreira!”
Bonito. Mas alguém pode cobrar o outro responsável enquanto ela descansa? Porque transformar exaustão em medalha também é uma maneira muito conveniente de deixar tudo como está.
Mulheres podem rever escolhas, reconhecer sinais, aprender com relações. Nada disso transfere para elas a autoria do abandono cometido por outra pessoa.
Quem abandona escolhe abandonar. Quem se omite escolhe se omitir. Há um adulto tomando essas decisões. Por que tanta gente insiste em tratá-lo como consequência do gosto amoroso de uma mulher?
A sociedade precisa parar de interrogar a mãe como se ela tivesse fabricado o caráter do ex.
Antes de perguntar por que ela escolheu aquele homem, experimentem perguntar a ele por que escolheu ser esse pai.
E aguardem a resposta.
Sem chamar a mãe para responder por ele.
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