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BLOGS E COLUNAS

Ainda não é o velório

04/11/2026 13h08

É impressionante a quantidade de gente disposta a decretar o fim da nossa vida enquanto a gente ainda está escolhendo o que vai almoçar.


Separou? Acabou.

Perdeu o emprego? Fracassou.

Passou dos cinquenta? Agora sossega.

Resolveu mudar de profissão? Nessa idade?


Se depender de certos conhecidos, depois de uma decepção a pessoa já deveria escolher a roupa do enterro. Discreta, de preferência, para não incomodar com uma última ousadia.


Recomeçar constrange muita gente. Principalmente quem se acomodou e gostaria de transformar a própria desistência em regra para o bairro inteiro.


Você anuncia um plano e aparece alguém com uma pá:

“Não quero te desanimar, mas…”


Quer, sim. Só teve a delicadeza de colocar uma introdução.


Há quem suporte ouvir a sua tragédia por horas, mas fique inquieto diante de cinco minutos da sua esperança. Enquanto você sofre, essa pessoa sabe o que oferecer: conselho, pena, uma história pior. Quando você se levanta, ela precisa encontrar outro assunto.


E nós ainda pedimos licença.


Licença para estudar, para amar de novo, para sair de uma relação que já acabou por dentro. Licença para abandonar uma carreira que dá prestígio na mesa dos outros e tristeza na nossa segunda-feira.


Como se quem opina fosse assumir as consequências de ficarmos.


Nunca vi fiscal de vida alheia se apresentar para cumprir o aviso-prévio da nossa infelicidade. Opina e vai embora. A conta fica conosco.


Mas seria confortável demais culpar apenas a plateia. Muitas vezes, somos nós que mantemos a porta trancada, agarradas a uma chave enferrujada chamada “o que vão pensar?”.


Também usamos o tempo investido como argumento para continuar:

“Mas foram tantos anos…”


Pois é. Foram. Você pretende entregar os próximos também?


Existe um luto em admitir que uma escolha não deu certo. Dói olhar para o esforço, para o dinheiro, para o amor oferecido e reconhecer que aquilo não vai se transformar no que esperávamos. A gente insiste porque quer salvar a história. Às vezes, nessa tentativa, vai gastando justamente a vida que ainda tem.


Recomeçar pode ser bem menos bonito do que parece nas frases de internet. Tem medo, orçamento apertado, currículo sem resposta e domingo de dúvida. Nem sempre há aplauso. Há dias em que a grande conquista é fazer uma ligação que estamos adiando há meses.


Ainda assim, aquele pequeno movimento pode abrir espaço para alguma coisa que a resignação nunca permitiria conhecer.


Não precisamos trocar tudo amanhã. Podemos começar deixando de mentir hoje. Admitindo que queremos outra coisa. Pedindo ajuda. Fazendo um plano possível, mesmo sem garantia e sem uma fotografia bonita para anunciar.


Quanto aos que dizem que já passou da hora, deixemos que cuidem dos próprios relógios.


O meu ainda está andando.


E eu acho um desperdício comparecer ao próprio velório com tantos anos de antecedência.


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SIBÉLE CRISTINA
Coluna atualizada de segunda a sábado
Sibéle Cristina Garcia é apresentadora do programa Mais Mulher na UniTVSC desde maio de 2008. Graduada em Pedagogia e Marketing. Pós-graduada em Sexualidade Humana e Sexologia. É especialista em Relacionamento Abusivo, comunicadora, terapeuta e encorajadora da liberdade feminina.
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