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BLOGS E COLUNAS

Meu corpo não faz sala

05/11/2026 13h02

Tem visita que a gente recebe com café. E tem visita que a gente recebe contraindo até o músculo que nem sabia que tinha.


A boca diz “que bom te ver”, mas o resto da pessoa já está procurando a saída de emergência.


Somos muito educadas. Às vezes, educadas até demais com os outros e grosseiras conosco. Oferecemos cadeira para quem nos constrange, mais uma oportunidade para quem nos diminui e um sorriso para encerrar aquela “brincadeira” que só teve graça para quem fez.


Depois, voltamos para casa exaustas e ainda pensamos:

“Devo estar ficando antissocial.”


É possível. Mas também é possível que estejamos ficando menos disponíveis para certas palhaçadas.


Há encontros em que você passa mais tempo se preparando para não ser atingida do que aproveitando a companhia. Escolhe cada palavra, esconde uma alegria para não ouvir deboche, omite um projeto para não receber uma previsão de fracasso. Quando chega a hora de ir embora, sente um alívio que deveria merecer investigação.


E, mesmo assim, marca de novo.


Porque é família.

Porque é amizade antiga.

Porque vão falar.


Falar, aliás, vão de qualquer maneira. A diferença é se você estará descansada para ouvir.


Demorei a perceber quanto esforço gastava tentando parecer confortável onde precisava me vigiar o tempo inteiro. Chamava de paciência. De maturidade. De saber conviver. Tinha orgulho de aguentar.


Hoje, tenho algumas dúvidas sobre esse currículo.


Aguentar tudo pode até render fama de pessoa fácil de lidar. Principalmente entre aqueles que dão trabalho.


Claro que um desconforto não transforma ninguém em vilão. A intuição também se confunde, o medo às vezes exagera e precisamos rever nossas impressões. Mas essa disposição para compreender o outro precisa incluir a possibilidade de acreditar em nós mesmas.


Se toda conversa termina com você se sentindo menor, vale prestar atenção. Se um limite seu sempre vira motivo de ofensa, vale prestar atenção. Se a relação só funciona quando você concorda, cala e cede, talvez esteja funcionando muito bem para uma pessoa só.


Não preciso esperar uma cena terrível para admitir que algo me faz mal. Posso observar, conversar, ajustar a distância. Posso ir embora mais cedo. Posso até recusar o convite sem apresentar uma tese com testemunhas e firma reconhecida.


Ultimamente, ando experimentando uma frase curta:


“Obrigada, mas não vou.”


Ainda sinto uma pontinha de culpa. Anos de treinamento para agradar não desaparecem numa terça-feira.


Mas a culpa passa.


E é uma delícia descobrir que a tarde inteira continua sendo minha.


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SIBÉLE CRISTINA
Coluna atualizada de segunda a sábado
Sibéle Cristina Garcia é apresentadora do programa Mais Mulher na UniTVSC desde maio de 2008. Graduada em Pedagogia e Marketing. Pós-graduada em Sexualidade Humana e Sexologia. É especialista em Relacionamento Abusivo, comunicadora, terapeuta e encorajadora da liberdade feminina.
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