Enquanto milhões de crianças crescem sem o nome do pai na certidão de nascimento, existe algo profundamente contraditório acontecendo na sociedade.
Homens que nunca trocaram uma fralda.
Homens que nunca pagaram pensão.
Homens que desapareceram antes mesmo do primeiro ultrassom.
Homens que não atenderam uma ligação, não compareceram a uma reunião escolar e não estiveram presentes em uma única noite de febre.
Mas que, curiosamente, aparecem com convicções inabaláveis quando o assunto é aborto.
O debate sobre o aborto é complexo. Envolve ética, ciência, saúde pública, direitos, religião, sofrimento e escolhas difíceis. Não é um tema que caiba em frases prontas ou em julgamentos apressados.
Mas é impossível ignorar uma pergunta:
Onde estão esses mesmos homens quando a criança nasce?
Porque defender a vida não deveria terminar no parto.
Defender a vida também é registrar o filho.
É dividir responsabilidades.
É pagar pensão sem precisar de ordem judicial.
É participar da educação.
É estar presente nos aniversários, nas consultas médicas, nas noites de medo e nas manhãs de esperança.
A sociedade cobra das mulheres uma responsabilidade que muitas vezes não cobra dos homens na mesma intensidade.
E isso não é justiça.
Toda opinião tem o direito de existir. Mas toda opinião também carrega o peso da coerência.
Talvez o dia em que nenhuma criança crescer sem reconhecimento paterno, sem abandono e sem negligência seja o dia em que esse debate aconteça em condições mais honestas.
Até lá, antes de discutir o corpo das mulheres, talvez seja necessário discutir a ausência de muitos homens na vida dos próprios filhos.
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