Dizem que o inferno é um lugar quente, cheio de sofrimento e gente reclamando.
Ou seja: algumas reuniões de condomínio.
Mas a verdade é que há pessoas que carregam o inferno dentro de si e o distribuem gratuitamente por onde passam. Não importa se estão na praia, numa festa, num casamento ou numa viagem para o Caribe. Elas conseguem encontrar um motivo para reclamar.
Se ganham flores, dizem que preferiam chocolate.
Se ganham chocolate, reclamam das calorias.
Se ganham os dois, desconfiam da intenção.
São pessoas que entram numa padaria perfumada e saem falando do preço do pão.
Conheço gente que vai para um resort cinco estrelas e passa a semana inteira fotografando defeitos no banheiro para mandar no grupo da família.
Outras transformam qualquer conversa em tragédia.
Você comenta:
— Hoje está um lindo dia!
E a criatura responde:
— Aproveita. Semana que vem pode chover.
É um talento raro. Uma espécie de superpoder às avessas.
Enquanto algumas pessoas carregam luz, elas carregam uma tomada que só funciona no modo curto-circuito.
O problema é que o inferno interior não escolhe endereço. Quem vive em guerra consigo mesmo acaba declarando guerra ao mundo inteiro.
Por isso, antes de culpar a cidade, o emprego, o trânsito, o casamento, o vizinho, o governo e até o cachorro do vizinho, talvez valha a pena verificar se o incêndio não começou dentro de casa.
Porque há quem viva num paraíso e encontre o inferno.
E há quem atravesse o inferno e ainda encontre motivos para rir.
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