Tem gente que não entra numa conversa. Entra numa audiência, procurando provas de que foi desrespeitada.
Você diz “hoje não posso”, ela escuta “você não importa”. Demora para responder, ela decreta abandono. Discorda de uma opinião, pronto: revelou sua verdadeira face.
É uma eficiência impressionante para transformar um desencontro de agenda em traição.
Às vezes, o outro só estava trabalhando. Dormindo. Pagando boleto. Vivendo aquela ousadia chamada vida própria.
Mas a ferida antiga já pegou o microfone e está dando entrevista em nome dos fatos.
— Eu sei muito bem o que você quis dizer!
Sabe tanto que nem precisa ouvir. Já escreveu a acusação, escolheu a sentença e publicou uma indireta sobre decepção.
Claro que existe gente cruel. Existe desprezo, manipulação e palavra escolhida para machucar. Mas também existe o desconforto de ouvir um “não” sem que ninguém tenha cometido uma violência.
Nem todo limite é rejeição. Nem toda discordância é inveja. E nem todo silêncio foi cuidadosamente planejado para acabar com o seu dia.
Dói reconhecer isso, porque exige abandonar o conforto de estar sempre certa sobre a maldade alheia.
A nossa dor merece cuidado. Só não dá para entregar a conta a cada pessoa que se aproxima.
Até porque ninguém consegue construir intimidade passando o tempo todo pela alfândega das suas suspeitas.
Antes de perguntar “por que estão fazendo isso comigo?”, talvez valha perguntar: “o que, exatamente, fizeram?”
Às vezes, houve uma agressão.
Às vezes, alguém apenas não concordou com você.
E o ego, esse ator premiado, entrou em cena fazendo papel de vítima.
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