Tem gente que chama de conselho aquilo que, na verdade, é medo de ver você vivendo uma coragem que ela nunca teve.
Você diz que vai mudar de profissão.
— Mas nessa idade?
Diz que vai viajar sozinha.
— Você não tem medo?
Diz que vai terminar um relacionamento que já terminou faz tempo, só esqueceram de avisar ao casal.
— Mas vocês estão juntos há tantos anos…
Diz que vai começar um novo amor.
— Cuidado para não sofrer.
Minha filha, se a humanidade tivesse esperado garantia contra sofrimento para amar, Romeu e Julieta teriam aberto uma sociedade comercial e Shakespeare estaria desempregado.
Há conselhos que nascem do amor.
Mas há outros que nascem do medo.
E o problema é que, muitas vezes, o medo vem disfarçado de prudência.
Quem nunca teve coragem de recomeçar vai tentar explicar por que você deveria permanecer.
Quem passou a vida inteira preocupado com a opinião dos outros vai achar perigoso você não dar a mínima.
Quem desistiu dos próprios sonhos pode chamar os seus de irresponsabilidade.
E quem aprendeu a sobreviver dentro de uma gaiola talvez tente convencê-la de que voar é arriscado demais.
É. Voar é arriscado.
Amar também.
Recomeçar, então, nem se fala.
Mas ficar onde a alma já não cabe também tem um preço.
Jane Austen entendeu isso há mais de duzentos anos em Persuasão.
Às vezes, somos tão persuadidas pelas certezas dos outros que começamos a desconfiar dos nossos próprios desejos.
E passamos anos tentando descobrir se fizemos a escolha certa.
Até perceber que o maior erro talvez tenha sido outro:
deixar que alguém escolhesse por nós.
Hoje eu escuto conselhos.
Escuto mesmo.
A maturidade me ensinou que podemos aprender muito com quem nos ama.
Mas aprendi também uma coisa ainda mais importante:
conselho é opinião, não procuração.
Ninguém recebe autorização para administrar a minha vida só porque acredita saber o que é melhor para mim.
Pode avisar.
Pode alertar.
Pode até dizer:
— Sibéle, isso vai dar merda.
Eu agradeço.
Analiso.
Penso.
E depois decido.
Porque, se for para quebrar a cara, pelo menos quero ter o direito de dizer:
“Essa merda fui eu que escolhi.”
E, curiosamente, algumas das maiores felicidades da nossa vida começam exatamente no lugar onde alguém nos aconselhou a não ir.
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