Desde cedo, a menina aprende.
Não aceite bebida de desconhecido.
Não volte sozinha.
Avise quando chegar.
Compartilhe a localização.
Não deixe o copo na mesa.
Olhe para trás.
Segure a bolsa.
Atravesse a rua.
Desconfie.
E, se puder, aprenda a se defender.
A menina cresce e a lista cresce junto.
Mas talvez estejamos começando a educação pelo lado errado.
Enquanto ensinamos nossas filhas a identificar o perigo, precisamos ensinar nossos filhos a nunca serem o perigo.
Ensinar que “não” não é charme, provocação nem convite para insistir.
Que roupa curta não é autorização.
Que bebida não é consentimento.
Que namoro não dá posse.
Que casamento não dá propriedade.
Que ciúme não é prova de amor.
Que insistência não é sedução.
Que masculinidade não se mede pela quantidade de mulheres conquistadas — muito menos pela capacidade de dominá-las.
Precisamos conversar com os meninos sobre respeito antes de precisarmos conversar com as meninas sobre medo.
E talvez uma das lições mais importantes seja esta:
uma mulher não precisa apresentar uma justificativa para não querer.
Não quero.
Duas palavras.
Sujeito oculto.
Predicado claríssimo.
E ponto-final.
Continuemos ensinando nossas meninas a reconhecer riscos, sim. Infelizmente, ainda é necessário.
Mas está mais do que na hora de dividir essa responsabilidade.
Porque não podemos passar gerações ensinando mulheres a correr mais rápido sem perguntar por que ainda existem homens dos quais elas precisam correr.
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