Tenho feito pão caseiro toda semana. Tem quem ache que é dedicação à culinária. É gestão de conflitos.
Melhor fazer pão do que dizer o que penso. Porque farinha no chão a gente varre. Certas verdades, depois de espalhadas, nem mudando de cidade.
Depois dos 50, descobri uma maneira elegante de não perder a razão: arregaço as mangas e desconto na massa. Aperto, estico, dobro, dou uns tapas… Tudo dentro da lei e com possibilidade de passar manteiga depois.
— Nossa, Sibéle! Que pão fofinho! Qual é o segredo?
Não posso revelar. Envolve fermento biológico e algumas pessoas que testaram minha evolução espiritual.
Sovar é libertador. A cada movimento, uma resposta atravessada deixa de ser enviada. Meu WhatsApp anda uma paz. Minha bancada, um campo de batalha.
E a massa ainda tem uma qualidade rara: quando mando descansar, ela descansa. Não argumenta, não se faz de vítima e não vem explicar que eu entendi errado.
Jackson deve achar que essa produção toda é uma nova paixão doméstica. E é. Estou apaixonada pela possibilidade de resolver minhas indignações sem precisar constituir advogado.
Não virei uma mulher menos ácida. Só aprendi a trabalhar com fermentação.
Por enquanto, está dando certo: ninguém ouviu o que merecia e todo mundo está comendo bem.
Mas, se eu abrir uma padaria… desconfiem. A situação ficou séria.
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