Quando se fala em trauma, quase todo mundo imagina um grande acontecimento.
Um acidente. Uma perda. Uma tragédia.
Mas há traumas que não chegam de uma vez.
Chegam em gotas.
Uma crítica todos os dias. Um silêncio que machuca. A comparação constante. O abraço que nunca veio. O elogio que sempre foi economizado. O medo de errar dentro da própria casa.
Sozinhas, essas dores parecem pequenas.
Juntas, tornam-se um oceano.
É como uma pedra sendo atingida pela água. Ninguém acredita que uma gota possa abrir um buraco na rocha. Mas o tempo faz aquilo que a força, muitas vezes, não consegue.
Assim também acontece com a alma.
Ela vai aprendendo, sem perceber, que precisa andar na ponta dos pés. Que não pode incomodar. Que precisa agradar para ser amada. Que nunca é suficiente.
E um dia, já adulto, alguém pergunta por que você tem tanto medo de rejeição.
Você não sabe responder.
Porque não foi um único dia.
Foram centenas.
Nem todo trauma nasce de um grande acontecimento.
Alguns são construídos pela repetição de pequenas dores que nunca encontraram acolhimento.
A boa notícia é que a cura também pode acontecer em pequenas doses.
Um encontro seguro. Uma conversa verdadeira. Um afeto constante. Um “você não precisa provar nada para ser amado”.
Se a dor foi aprendida aos poucos, o amor também pode ensinar um caminho de volta.
E, às vezes, é justamente nos pequenos gestos que a alma começa, enfim, a acreditar que está em casa outra vez.
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