A violência doméstica nem sempre começa com um tapa.
Às vezes, começa com uma frase.
“Você não é boa o suficiente.”
“Ninguém vai querer você.”
“Você não consegue viver sem mim.”
“Você provoca tudo isso.”
“Olha o que você me fez fazer.”
E de tanto ouvir, algumas mulheres começam a acreditar.
Esse talvez seja um dos efeitos mais perversos da violência: uma mentira repetida pode se transformar em uma identidade vivida.
A mulher que antes se reconhecia forte começa a se enxergar incapaz. A que tinha opinião passa a pedir permissão. A que sorria livremente aprende a medir palavras, roupas, amizades, horários e até o próprio silêncio.
Até que um dia já não sabe mais onde termina o medo e onde começa ela.
Por isso, sair de uma relação violenta não significa apenas fechar uma porta.
É preciso reconstruir tudo aquilo que foi sendo destruído dentro dela.
A autoestima.
A confiança.
A autonomia.
A voz.
A capacidade de acreditar novamente nas próprias escolhas.
E talvez uma das frases mais importantes que uma sobrevivente precise ouvir seja:
Você sobreviveu ao lugar onde ainda tentavam convencê-la de que não conseguiria viver sem eles.
Agora começa outro caminho.
O de devolver a si mesma o nome que a violência tentou apagar.
Você não é fraca.
Não é aquilo que disseram sobre você.
Não é a culpa que colocaram nos seus ombros.
Você é alguém que atravessou uma história difícil e ainda está aqui.
E reconstruir-se não significa voltar a ser quem você era antes.
Às vezes, significa conhecer pela primeira vez a mulher que poderia ter sido se ninguém tivesse tentado diminuí-la.
Sobreviver foi o primeiro ato de coragem.
Restaurar a própria identidade será o próximo ato de liberdade.
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