Há quem ainda olhe para uma mulher que denuncia um estupro e pergunte: “E se ela estiver mentindo?”
Talvez a pergunta mais justa seja outra:
E se ela estiver dizendo a verdade?
Porque, para cada denúncia que chega às delegacias, existem incontáveis histórias que nunca chegam a lugar nenhum. Histórias enterradas pela vergonha, pelo medo, pela culpa, pela dependência financeira, pela ameaça, pela descrença e, principalmente, pelo julgamento.
Denunciar um abuso raramente é um caminho fácil. É reviver o trauma diante de desconhecidos, suportar olhares desconfiados, enfrentar perguntas invasivas e, muitas vezes, ver a própria vida exposta enquanto o agressor continua tentando preservar a dele.
É por isso que tantas mulheres escolhem o silêncio.
Não porque o crime não aconteceu.
Mas porque sobreviver parece menos doloroso do que ser desacreditada.
Sim, denúncias falsas existem. Como existem em praticamente todos os tipos de crime. Mas elas representam uma pequena parcela quando comparadas ao enorme número de violências sexuais que sequer são registradas.
Quando uma mulher encontra coragem para romper o silêncio, ela não está apenas contando uma história. Ela está enfrentando um sistema inteiro que, durante séculos, ensinou as vítimas a sentirem vergonha pelo crime cometido contra elas.
Que a nossa primeira reação nunca seja o julgamento.
Que seja a escuta.
Porque uma sociedade que desconfia automaticamente da vítima acaba oferecendo ao agressor exatamente o que ele mais deseja: o silêncio.
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