Quando eu era pequeno, tinha medo de muitas coisas. O primeiro de todos os meus medos foi uma espécie de bicho-papão que morava no fundo de uma gaveta escura de um armário lá de casa. Nunca tive coragem de abrir aquela gaveta, pois tinha certeza de que, se fizesse isso, o monstro sairia de lá e acabaria com minha família inteira.
Era uma responsabilidade muito grande para uma criança. Por isso, eu mantinha a gaveta fechada e, dessa forma, acreditava estar mantendo minha família a salvo.
Mais tarde, apareceu outro monstro. Esse morava em algum lugar dos morros que cercavam o sítio onde vivíamos, no município de Pedras Grandes. Com esse monstro, eu até conseguia conversar, embora não fosse uma conversa muito interessante.
Tudo o que eu dizia, ele repetia com uma voz alta e grave, que parecia vir das profundezas da terra. Um dia, perguntei a um adulto que bicho era aquele.
Ele respondeu que era o eco, mas não explicou mais nada. Fiquei sabendo o nome do monstro, mas continuei sem saber que diabo de criatura era aquela. Achei melhor não provocá-lo. Então parei de puxar conversa com o eco e passei muitos anos preocupado com a possibilidade de encontrá-lo pessoalmente. Imaginava que um encontro desses poderia acabar muito mal pra mim.
Aos sete anos, deixamos o sítio e nos mudamos para Tubarão. Pensei que, longe dos morros e daquela gaveta escura, estaria livre dos monstros. Estava enganado. Um dia, caminhando pela rua, encontrei um envelope caído no chão. Dentro dele havia uma nota de dinheiro e uma mensagem escrita num papel.
Como eu era apenas um menino que gostava muito de doces, dei mais importância ao dinheiro do que ao que estava escrito naquele papel. Não perdi tempo: fui até uma venda e gastei tudo comprando meia dúzia de balas. Só depois, enquanto mastigava a última bala, resolvi ler o bilhete. Foi aí que conheci um dos monstros mais terríveis da minha infância.
A mensagem dizia que quem encontrasse aquela carta deveria fazer outras cinco cópias e enviá-las secretamente a mais cinco pessoas, cada uma acompanhada de uma nota de dinheiro. Caso não cumprisse a determinação, eu morreria dentro de no máximo um ano. Entrei em desespero. Eu já havia comido todas as balas, e não tinha dinheiro para repassar aquelas cartas adiante.
Chorei durante dias, talvez semanas, e passei muito tempo esperando a morte anunciada naquele pedaço de papel. O pior é que não havia a quem recorrer. Eu era um menino pobre e, naquela época, ser pobre significava também não ter dinheiro nem para escapar de uma maldição.
Felizmente, sobrevivi. O prazo de um ano passou, a morte não apareceu e descobri, sem que ninguém precisasse me explicar, que nem todas as ameaças se cumprem. Mas os monstros não desapareceram.
Conforme fui crescendo, eles apenas mudaram de aparência. Deixaram de morar nas gavetas, nos morros e nos envelopes encontrados na rua e passaram a viver nas conversas dos adultos, nos conselhos que recebíamos e nas verdades que nos ensinavam desde pequenos. Eram medos que outras pessoas, muitas vezes sem perceber, colocavam dentro da nossa cabeça.
O maior deles era o medo de ser pobre. Porque ser pobre, naquele tempo, parecia significar muito mais do que não ter dinheiro. Significava não ter acesso às coisas, não poder sonhar muito alto e não esperar grandes oportunidades. Era como se existisse uma regra determinando o lugar de cada pessoa no mundo.
Os filhos dos ricos podiam estudar, viajar, escolher profissões e fazer planos. Os pobres precisavam aprender a trabalhar cedo, aceitar o que aparecesse e agradecer por isso. O conselho, embora nem sempre fosse dito com essas palavras, era bastante claro: se você nasceu pobre, não se atreva a sair do seu lugar. E eu tinha medo de sair do meu.
Tive medo da fome, do desemprego e da falta de oportunidades. Tive medo de não conseguir estudar, de não ter uma profissão e de passar a vida inteira olhando de longe para coisas que pareciam reservadas aos outros.
Com o tempo, fui percebendo que muitos daqueles medos tinham fundamento. As oportunidades realmente não eram distribuídas de maneira igual e, em muitos aspectos, ainda não são. Mas também descobri que algumas portas, antes praticamente fechadas para os pobres, começaram a se abrir.
Eu mesmo consegui fazer um curso superior por meio do ProUni, fui aprovado em dois concursos públicos e consegui comprar uma casa financiada com juros baixos. Eram conquistas que, durante boa parte da minha infância, pareciam pertencer a um mundo muito distante do meu.
Hoje em dia ainda vejo pessoas que enfrentam dificuldades ainda maiores do que aquelas que enfrentei encontrando algum apoio em programas como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Tarifa Social de Energia Elétrica e outras políticas públicas. É claro que esses programas não resolvem todos os problemas.
Eles não acabam com a desigualdade, não eliminam a pobreza e não garantem, por si só, um futuro melhor. Mas ajudam a aliviar o peso da vida e, às vezes, é justamente desse pequeno alívio que uma família precisa para conseguir pensar no amanhã. Quem está preocupado apenas em sobreviver até o fim do dia dificilmente encontra tranquilidade para planejar o futuro.
Hoje, quando olho para trás, percebo que passei boa parte da vida fugindo de monstros. Alguns nunca existiram. Eram frutos da imaginação de um menino assustado. Outros eram bem reais e tinham a forma da pobreza, da desigualdade e da falta de oportunidades. O bicho-papão nunca saiu daquela gaveta.
O eco continua respondendo a quem conversa com os morros. E a carta que prometia minha morte perdeu a validade há muito tempo. Mas houve um monstro que me acompanhou por muito mais tempo: aquele que me fazia acreditar que, por ser pobre, eu deveria me conformar com o lugar onde havia nascido. Demorei muitos anos para descobrir que não precisava obedecer a esse monstro.
E, se hoje algumas pessoas conseguem fazer essa descoberta mais cedo, é porque começaram a surgir oportunidades que antes não existiam para elas. Ainda há muitos monstros pelo caminho. Mas pelo menos um deles já não me assusta tanto: aquele que dizia que pobre não tinha o direito de sonhar.
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