Tem gente por aí que resolveu escolher seus prestadores de serviço de acordo com o voto que depositaram na urna. Chegaram ao ponto de organizar uma lista para boicotar estabelecimentos e profissionais que votaram em candidatos do PT.
Penso que essa iniciativa deve dar um trabalho danado. Imaginem só. Já não basta saber se o padeiro faz um bom pão, se o mecânico entende de motores ou se o farmacêutico conhece os remédios que vende.
Agora, antes de qualquer transação comercial, é preciso investigar as preferências políticas de quem está do outro lado do balcão. A qualidade do serviço passou a ser um detalhe. O importante é saber em quem o sujeito votou.
O cidadão frequenta um restaurante há anos. Conhece o proprietário, aprecia o atendimento, confia na higiene da cozinha, acha o preço justo e considera a comida uma maravilha. Mas, se descobrir que o dono votou no PT, acabou a amizade. Que fique com a comida encalhada!
Deve ser uma situação bastante desagradável saborear uma excelente feijoada e, uma hora depois, descobrir que o cozinheiro é petista. O jeito é enfiar o dedo na garganta e vomitar tudo. Afinal, uma feijoada preparada por mãos politicamente suspeitas não pode permanecer no estômago de um cidadão de princípios.
Mas uma iniciativa tão criteriosa não pode ficar restrita aos restaurantes, padarias e oficinas mecânicas. Seria uma incoerência imperdoável.
Imaginem um cidadão que dá entrada no Hospital Nossa Senhora da Conceição com uma forte dor no peito. O médico se aproxima, examina o paciente e constata que ele está sofrendo um infarto. O homem, mesmo entre a vida e a morte, reúne suas últimas forças e pergunta: “Doutor, antes de começar, preciso saber uma coisa. Em quem o senhor votou?”
Se o médico responder que votou no Lula, não resta alternativa. O paciente agradece a atenção, desce da maca, ajeita a camisa e sai à procura de outro hospital. Afinal, convicções são convicções. Não é um simples infarto que vai fazer um homem mudar de ideia.
O mesmo raciocínio vale para os acidentes de trânsito. Antes de aceitar os primeiros socorros, o acidentado precisa conhecer as preferências eleitorais do motorista da ambulância, dos socorristas e, por precaução, de quem estiver segurando o soro. Se algum deles tiver votado no candidato errado, que procurem outro ferido.
E os homens que recolhem o lixo das nossas casas? Também precisam passar pelo exame ideológico. Se votaram no PT, que deixem os sacos na calçada. O lixo de uma família de convicções tão firmes não merece ser recolhido por mãos politicamente inadequadas.
Com os bombeiros, a situação fica ainda mais interessante. Imaginem uma casa em chamas. Os bombeiros chegam com suas mangueiras, escadas e equipamentos, prontos para enfrentar o incêndio. Mas, antes de permitir que entrem, o proprietário exige uma declaração de voto de cada integrante da equipe. Se as respostas não forem satisfatórias, que recolham as mangueiras e voltem ao quartel.
É claro que tudo isso parece absurdo. E é justamente aí que está o problema. Quando começamos a escolher quem merece nosso respeito, nossa confiança ou nosso dinheiro exclusivamente por suas preferências políticas, damos o primeiro passo para transformar diferenças de opinião em motivos de exclusão.
Em 1933, na Alemanha, os nazistas organizaram um boicote aos estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus. As circunstâncias históricas eram muito diferentes, e não se trata de equiparar os acontecimentos. Mas a história nos deixou uma advertência que não deveria ser esquecida: a exclusão de pessoas pode começar com gestos aparentemente simples, até que a discriminação passe a ser considerada normal.
A vida não precisa ser tão complicada. O padeiro deve ser escolhido pela qualidade do pão. O mecânico, pela competência com que conserta o carro. O médico, pela capacidade de salvar vidas. O restaurante, pela comida que serve e pelo respeito com que trata seus clientes.
E cada um deve ter a liberdade de votar em quem quiser, sem precisar apresentar um atestado de fidelidade política para trabalhar, vender, comprar ou simplesmente conviver com os outros. Não precisamos concordar com as escolhas políticas de nossos vizinhos, amigos ou prestadores de serviço para reconhecer neles pessoas honestas, competentes e merecedoras de respeito.
Porque democracia não é apenas o direito de votar em quem a gente gosta. É também saber conviver com quem votou em quem a gente não gosta.
