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BLOGS E COLUNAS

Cortina de vidro

17/07/2020 14h48

Alberto orgulhava-se de ser um homem exemplar. Todos os dias, na empresa em que administrava, ocupando o alto da pirâmide no cargo de presidente da organização – era um dos primeiros a chegar logo cedinho, e o último a sair, incumbindo-se de apagar as luzes e desligar o ar-condicionado.

Seu gabinete localizava-se no topo do terceiro andar do prédio administrativo da empresa, situado no centro da fábrica, com vista panorâmica de 360º sobre a linha de produção. No conforto de sua poltrona, era possível observar o andamento dos trabalhos em todos os setores da empresa. Embora ele fizesse o julgamento à distância e nunca tivesse descido até o pátio para saber a realidade de cada indivíduo, a espreita cotidiana o fez pensar que sabia identificar quais eram os funcionários produtivos e os malandros que matavam hora durante o expediente.

Era uma segunda-feira ensolarada e, como sempre o fazia, Alberto chegou por volta das 7 horas ao escritório e passou por sua secretária, que lhe recepcionou com um singelo “bom dia”. O chefe sequer respondeu. Passou com pressa, sem olhá-la e enclausurou-se no gabinete. Sentou na poltrona e deslizou até bem pertinho da vidraça. Com o rosto quase encostado à muralha de vidro, ficou a observar os empregados na lida, avaliando o desempenho de cada indivíduo. Depois de muito tempo a velar, chegou à conclusão de que o proletariado era molenga e de baixo desempenho produtivo. Cada vez mais se convencia de que a classe operária estava aquém dos padrões estabelecidos por seus critérios, já que o próprio Alberto considerava-se um exemplo de rendimento e eficiência e não admitia manter em seus quadros corporativos pessoas ociosas e desqualificadas. Inconformado com os rumos da empresa, ele acreditava que havia chegado o momento de tomar uma medida drástica para aumentar a produtividade.

– Olha só aquele rapaz sentado durante o expediente! – exclamou consigo mesmo. – E aquela turminha conversando! Tenho que tomar uma atitude urgente. Vou assinar uma demissão em massa, vou aumentar a carga horária, vou cortar a cesta básica, vou retirar o direito do vale-transporte, vou cortar as horas extras, vou...

– Senhor Alberto, senhor Alberto… – era a secretária sacudindo-lhe os ombros.

– O que... o que foi?

– Já passa das 20 horas. Mais uma vez o senhor adormeceu debruçado sobre a cortina de vidro. Todos os funcionários encerraram o expediente, e precisamos fechar o escritório.

Alberto levantou-se com calma, pegou sua pasta e saiu sem dizer uma palavra à secretária. Sequer lembrou-se dos sonhos que teve durante o tempo em que ficou mergulhado nos mares profundos do sono.

MACIEL BROGNOLI
Crônicas e contos
Maciel Brognoli é guarda municipal de Tubarão, graduado em Administração Pública, Especialista em Segurança Pública e Gestão de Trânsito e escritor. Ocupa a cadeira n° 27 da Academia Tubaronense de Letras (Acatul) e escreveu quatro livros.
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