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BLOGS E COLUNAS

Corrupção no pinhão

13/08/2026 11h06

Dias atrás, fui fazer umas compras no Cestão, no centro de Tubarão. Comprei tomates, cebolas, batatas, laranjas e pinhão. Como qualquer pessoa que vai comprar frutas e verduras, costumo escolher o que vou levar. Examino os tomates, olho as cebolas, aperto de leve as laranjas. Afinal, ninguém quer pagar por um tomate podre ou por uma laranja passada.


Escolhi tudo e deixei o pinhão por último. Pinhão eu também escolho um por um. Há uma concha à disposição dos clientes, é verdade, mas considero aquilo um apetrecho para quem está com pressa. Eu não estava. 


Tinha tempo e disposição para exercer calmamente o meu direito de escolher aquilo que levaria para casa. E assim fui fazendo: um pinhão, outro, mais um. Os bons para dentro do saco, os ruins ficavam na bancada.


Enquanto escolhia, percebi um cochicho atrás de mim. Um homem comentava com outros clientes a minha “atitude errada”. Não dei importância e continuei escolhendo. Até que ele apareceu ao meu lado e disse: “Bonito, né? O próximo que vier vai levar só os ruins”.


No primeiro momento, achei que estivesse brincando. Dei um sorrisinho e respondi: “Não vou pagar por casca de pinhão. O senhor escolha os seus que eu escolho os meus”. Pensei que o assunto estivesse encerrado.


Não estava. Ele levantou a voz, talvez para que os outros clientes ouvissem: “Eu não faço isso. Isso é corrupção”.


Corrupção. A palavra ficou no ar. Geralmente sou calmo e procuro ser educado. Mas ser chamado de corrupto porque estava escolhendo os pinhões que pretendia comprar foi um pouco além da conta.


Fechei a cara e perguntei: “Meu senhor, quando o senhor compra cebolas ou laranjas, pega qualquer uma que aparece pela frente ou escolhe as melhores?” 


Ele não respondeu à pergunta. Apenas insistiu que minha atitude estava errada. Foi quando minha paciência acabou. E, já que ele havia feito questão de falar alto para que os outros escutassem, respondi no mesmo tom: “Então vá cuidar da sua vida. Não pedi sua opinião. Se o senhor não quer exercer o seu direito de escolher, tudo bem. Só não fique perturbando quem quer”.


Ele ficou quieto, baixou a cabeça e saiu de fininho. Voltei aos meus pinhões, escolhendo um por um. Ele tinha se aproximado para me dar uma lição de moral diante dos outros. No fim, tentou me envergonhar e saiu envergonhado.


E eu fui para casa com meus tomates, minhas cebolas, minhas laranjas e meus pinhões escolhidos um por um. Sem corrupção. E, principalmente, sem casca.


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MACIEL BROGNOLI
Crônicas e contos
Maciel Brognoli é guarda municipal de Tubarão, graduado em Administração Pública, especialista em Segurança Pública e Gestão de Trânsito e escritor. Ocupa a cadeira n° 27 da Academia Tubaronense de Letras (Acatul) e escreveu quatro livros.
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