Quarta-feira, 28 de julho de 2021
  • WhatsApp
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Youtube
  • Contato
Buscar
Fechar [x]

BLOGS E COLUNAS

Coração de criança

16/06/2021 09h36

Tratando-se de temas sobrenaturais, as gentes são livres para acreditar no que bem entenderem. Mas não estou aqui para falar de crenças, muito menos das supostas verdades que alguns disseminam por aí. Quero falar de crianças e olhares infantis, olhares que enxergam muito além do que os olhos miudinhos dos adultos. 


Eu tinha cinco ou seis anos de idade. Morava numa localidade interiorana com poucas casas, onde a luz artificial era rara. Nas noites de tempo bom e céu aberto, eu permanecia horas no jardim, ouvindo o coaxar dos sapos no açude e admirando - no céu negro pontilhado de prata - a beleza dourada da majestosa lua.


Na minha inocência de menino, eu acreditava que a amiga lua era propriedade do céu da terra onde eu vivia, e que se eu viajasse para outro recanto, não a veria nunca mais. Seria uma despedida dolorosa. Eu partiria triste por não mais poder apreciar sua beleza, e ela ficaria com eterno brilho pálido pela ausência da minha contemplação. 


Meu engano foi desfeito no início do mês de um final de tarde de inverno, quando pela primeira vez saí com meus pais da minha encantadora Canela Grande e vim para Tubarão. Embarquei no ônibus. Sentei na poltrona do lado da janela. Olhei para o céu com olhos tristes e silenciosamente me despedi da lua cheia. Mas foi grande a minha surpresa quando percebi a gorducha me acompanhando durante todo o trajeto. Cheguei ao destino. Desembarquei. Olhei para o céu de Tubarão e a lua estava tão linda e brilhante quanto no céu da minha terrinha. 


O tempo passou. Deixei de ser criança. Perdi a inocência e a capacidade de enxergar a vasta metafísica. Aquela pergunta não respondida ficou perdida no meu passado infantil: 


"Como é possível a lua estar em todo lugar para onde eu vou?"  


A resposta era importante para o menino; mas para o homem, pura banalidade e motivo de zombaria. 


Desde os meus sete anos de idade eu resido em Tubarão. Numa recente manhã fria de inverno, eu estava na região central quando percebi uma senhora negra – moradora de rua – caminhando na minha direção. Ela estava com a cabeça e as costas cobertas por uma manta grossa que a protegia do frio. Bem pertinho dela, uma jovem senhora também caminhava de mãos dadas com sua filha pequena. Quando a garotinha viu a moradora de rua, puxou a mãe com força pelo braço e falou:


– Mamãe, olha, a Nossa Senhora Aparecida está aqui!


Foi uma estupefação generalizada. Nenhum transeunte conseguia ver naquela mulher nada mais que uma moradora de rua com um trapo velho e sujo cobrindo a cabeça, mas a menina enxergou uma santa coberta por um manto sagrado. 


A garotinha transcendeu a visão porque tinha um olhar puro, um olhar que enxerga, um olhar infantil. E essa capacidade de ultrapassar a linha do ver, infelizmente, todos nós perdemos quando deixamos de ter coração de criança.

MACIEL BROGNOLI
Crônicas e contos
Maciel Brognoli é guarda municipal de Tubarão, graduado em Administração Pública, Especialista em Segurança Pública e Gestão de Trânsito e escritor. Ocupa a cadeira n° 27 da Academia Tubaronense de Letras (Acatul) e escreveu quatro livros.
CARREGAR MAIS
Agora Sul
  • WhatsApp
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Youtube
  • Contato
Sulagora.com. Tudo o que acontece no Sul. Agora. © 2019. Todos os direitos reservados.
Política de Privacidade

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.