A Vida que Ninguém Vê encontrou, no centro de Tubarão, o senhor Paulo Gilmar, de 57 anos.
Durante muitos anos, ele trabalhou em empreiteiras da construção civil. Até que, segundo conta, sofreu um acidente que deixou um de seus braços com limitações. Depois disso, a vida tomou outros caminhos. Passou a viver aqui e ali, sem rumo certo, e acabou encontrando no álcool uma companhia para uma vida que já era solitária.
Paulo nunca teve uma família nem uma casa para chamar de sua. E, por trás dessa vida que quase ninguém vê, existe uma história triste que começou muito cedo. Ele se lembra de que, ainda criança bem pequena, no Rio Grande do Sul, já vivia pelas ruas.
Não se lembra dos pais. Não se lembra de algum dia ter tido uma casa ou recebido o carinho de alguém da família. Para ele, nunca houve Natal, nunca houve aniversário, nunca houve aquela lembrança boa da infância que a gente guarda para contar depois de velho.
Um dia, foi levado pela polícia para um orfanato, onde permaneceu por algum tempo. Conta que era um lugar duro e que apanhava constantemente dos meninos maiores. Até que um dia pulou o muro e fugiu. Talvez não quisesse fugir apenas daquele lugar. Queria fugir do sofrimento e encontrar, em algum canto, um lugar no mundo que pudesse chamar de seu.
Hoje, aos 57 anos, Paulo recolhe latinhas e outros materiais recicláveis pelas ruas. De vez em quando, também consegue algum trabalho de jardinagem.
Perguntei se, depois de tudo o que viveu, ainda tinha algum sonho. Ele respondeu que gostaria de ter uma Kombi para viajar pelo mundo. Mas logo completou: “É um sonho impossível para alguém como eu.”
Talvez seja essa uma das partes mais tristes de uma vida inteira de dificuldades: não deixar de sonhar, mas começar a acreditar que os sonhos foram feitos apenas para os outros.
Obrigado, senhor Paulo Gilmar, por parar um pouquinho e dividir comigo um pedaço da sua história.
Enquanto ainda houver um sonho, mesmo que seja uma velha Kombi esperando por uma estrada qualquer, talvez ainda exista algum lugar para onde seguir. Porque nunca é tarde demais para encontrar um caminho.
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