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Quando ninguém precisava votar nele

14/09/2026 11h10

Sinceramente, eu não sei dizer a ninguém quais são as melhores opções na hora de votar. Só sei que não são apenas os diplomas, os títulos e os bons discursos que fazem de uma pessoa a melhor escolha. 


O bom caráter ainda me parece uma das qualidades mais importantes, talvez porque caráter não seja uma coisa que alguém possa improvisar durante uma campanha eleitoral. Ele é construído devagar, ao longo de uma vida inteira, nas pequenas escolhas, na maneira como tratamos as pessoas quando não precisamos delas e, principalmente, naquilo que fazemos quando ninguém está olhando.


Um menino que acompanha diariamente o pai sair de casa antes do amanhecer para trabalhar, aprende alguma coisa sobre o valor do esforço. Uma menina que vê a mãe dividir um pequeno pedaço de carne entre os filhos, quase como uma repetição doméstica do milagre dos pães e dos peixes, aprende alguma coisa sobre renúncia e generosidade. 


Essas crianças crescem sabendo que um quarto vazio não merece uma luz acesa, que comida não se joga fora e que coisas quebradas merecem ao menos uma tentativa de conserto antes de irem para a lixeira. São coisas pequenas, quase insignificantes para quem olha de fora, mas talvez seja justamente dessas pequenas lições que se forme aquilo que, muitos anos depois, chamamos de caráter.


Sempre desconfiei de pessoas que falam do povo sem nunca terem conhecido a vida comum do povo. Não é preciso ter sido pobre para respeitar a pobreza, nem ter passado fome para compreender a dor de quem não tem o que colocar na mesa. Mas acredito que seja preciso ter vivido alguma experiência humana de dificuldade para compreender verdadeiramente o valor das coisas. 


Um homem ou uma mulher que começou a trabalhar cedo, em um emprego simples, sabe quantas horas da própria vida precisou entregar em troca de um salário que não supre nem a metade de suas necessidades. Sabe que uma nota de dinheiro não representa apenas um número impresso no papel. Ela representa horas exaustivas de trabalho, tempo que poderia ter sido passado ao lado dos filhos.


Quem aprendeu cedo quanto custa conquistar o pouco que possui talvez compreenda melhor o peso de cada centavo que pertence a todos. E quem teve bons exemplos em casa quase sempre carrega dentro de si uma espécie de voz que aparece justamente nas horas em que ninguém está olhando. 


É aquela voz que, diante de uma facilidade indevida, de uma vantagem ou de uma tentação, pergunta baixinho: “Foi isso que ensinaram a você?” Talvez essa seja uma das melhores medidas para conhecer alguém que pretende entrar na vida pública, porque pessoas de caráter não são apenas aquilo que prometem ser durante uma campanha. Elas já eram assim quando não havia câmeras por perto, quando ninguém aplaudia seus gestos e, principalmente, quando ninguém precisava votar nelas.


Não estou dizendo que a política não exige inteligência, preparo e competência. Exige, e muito. Administrar dinheiro público, tomar decisões difíceis e escolher caminhos que afetam a vida de milhares ou milhões de pessoas não é tarefa para amadores.


Mas um bom coração, na minha opinião, continua sendo uma das qualidades mais importantes que deveríamos procurar em quem deseja receber nosso voto de confiança. Inteligência sem caráter pode produzir pessoas extremamente habilidosas para fazer aquilo que não deveriam fazer, e competência sem algum senso de humanidade pode transformar a administração pública numa coleção de números onde ninguém mais consegue enxergar as pessoas.


Mas também é preciso tomar muito cuidado para não cair em conversa fiada. Os marqueteiros já descobriram há muito tempo que histórias de infância pobre, pés descalços, dificuldades em casa e juventude simples em algum lugar esquecido do interior do Brasil podem render votos. Basta uma música triste, algumas fotografias antigas e meia dúzia de lembranças tristes bem contadas para fabricar uma biografia comovente. 


Existem lobos em todos os cantos, e alguns aprenderam muito bem a se vestir de cordeiro. Por isso, não basta alguém dizer que conhece a pobreza ou que veio de uma família humilde. É preciso observar o que essa pessoa fez durante a vida, como tratou aqueles que estavam abaixo dela, de que maneira construiu aquilo que possui e quem ela era antes de descobrir que precisava parecer boa para conseguir votos.


Também não devemos nos deixar impressionar por milionários que aparecem dizendo que entraram na política porque desejam apenas servir ao povo. Ser rico não faz de ninguém uma pessoa ruim, assim como ter sido pobre não transforma automaticamente alguém em uma pessoa boa. 


O problema é acreditar que alguém que já possui dinheiro suficiente não possa desejar alguma coisa ainda maior. Existe uma riqueza que não é possível colocar numa conta bancária e que, para certas pessoas, é muito mais sedutora: o poder. Depois de conquistar casas, empresas, carros e dinheiro suficiente para algumas vidas, ainda pode existir o desejo de mandar, decidir, ser ouvido e ter pessoas esperando do lado de fora de uma porta para lhe dar tapinhas nas costas e inflar seu ego. Existem pessoas que desejam mais o poder do que qualquer fortuna.


No fim das contas, administrar uma cidade, um estado ou um país é como receber, por algum tempo, a chave de uma casa que pertence a milhões de pessoas. Dentro dessa casa estão o dinheiro dos impostos, as escolas onde estudam nossos filhos, os hospitais para onde corremos quando alguém que amamos adoece, as ruas por onde passamos todos os dias e uma parte importante do futuro de pessoas que talvez nunca conheçamos. 


E quando entregamos a chave da nossa própria casa a alguém, não perguntamos apenas se essa pessoa estudou bastante ou se sabe abrir a porta. Queremos saber quem ela é. Queremos saber o que fará quando estiver sozinha lá dentro. Queremos, acima de tudo, saber se podemos confiar nela.


Confesso que sou admirador de um belo discurso. Gosto das palavras bem escolhidas, das frases que emocionam e daqueles discursos capazes de fazer uma multidão acreditar, pelo menos durante alguns minutos, que dias melhores virão. Mas aprendi também que palavras bonitas são uma mercadoria relativamente barata, principalmente em época de eleição. Um discurso pode ser escrito por um assessor, ensaiado diante de um espelho e aperfeiçoado por uma equipe inteira até parecer verdadeiro.


Por isso, na política, entre uma boca cheia de belas palavras e uma pessoa de poucas palavras com um grande coração, continuo preferindo a segunda. Afinal, discursos podem ser escritos por outras pessoas; caráter, não.


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MACIEL BROGNOLI
Crônicas e contos
Maciel Brognoli é guarda municipal de Tubarão, graduado em Administração Pública, especialista em Segurança Pública e Gestão de Trânsito e escritor. Ocupa a cadeira n° 27 da Academia Tubaronense de Letras (Acatul) e escreveu quatro livros.
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