Cidade Azul se torna refúgio para pessoas que procuram trabalho, segurança e um novo começo
Enquanto o noticiário internacional voltava os olhos para a crise diplomática entre Venezuela e Estados Unidos, milhares de venezuelanos já travavam, muito antes disso, batalhas silenciosas para reconstruir a própria vida longe de casa.
Em Tubarão, histórias como as de Maria Carolina Manzano e da jornalista Alba Rodrigues revelam que o município se tornou mais do que um destino provisório: virou lar.
Maria Carolina conta que, em 2020, no auge da pandemia da covid-19, ela atravessou a mata entre a Venezuela e Roraima com os filhos, durante a madrugada, guiada por um “coiote”.
“Foi horrível. Uma experiência traumática. E mais traumática ainda para quem fica perdido”, relembra Carolina, hoje moradora de Tubarão, onde vive há cerca de cinco anos.
A decisão extrema foi tomada após meses de espera. O marido chegou ao Brasil ainda antes da pandemia e tentava se manter com trabalhos informais em Tubarão.
Hoje, ela e o esposo atuam como microempreendedores individuais (MEIs) com serviços de limpeza, atendendo comércios, escritórios e prédios. “A gente faz tudo bem certinho, caprichado. É assim que se ganha espaço”, detalha.
A jornalista venezuelana Alba Rodrigues também escolheu Tubarão para recomeçar.
Em janeiro de 2022, veio passar férias na casa de Carolina. O que seria temporário virou definitivo poucos meses depois. “Me encantei com a tranquilidade, a segurança e, principalmente, com as pessoas”, conta.
Acolhimento que vem da fé
Apesar do recomeço, na avaliação das venezuelanas, quem efetivamente sustenta a rede de acolhimento são as igrejas e organizações ligadas a elas.
“As igrejas são um avanço para nós, não só para venezuelanos, mas para haitianos, cubanos, colombianos, peruanos e outros estrangeiros”, afirmam.
Entre as instituições citadas, a Cáritas Diocesana de Tubarão aparece como referência, oferecendo apoio com documentação, cursos de idioma, doações de roupas e alimentos, elaboração de currículos e encaminhamento para empregos e grupos de WhatsApp por nacionalidade.
“Esses grupos orientam tudo: documentos, saúde, trabalho. Sem isso, muita gente ficaria completamente perdida”, relata Carolina.
Esperança e recomeço
Distantes da terra de origem, mesmo após a captura do ditador Nicolás Maduro, muitos venezuelanos preferem seguir adiante no recomeço brasileiro, em vez de apostar em um retorno.
“A esperança por mudanças e melhorias sempre existe, mas será um processo lento. Meus filhos cresceram aqui. Minha filha é mais brasileira do que venezuelana”, afirma Maria Carolina.
Ela ainda explica que o vínculo com o país de origem permanece na memória, na comida, nas tradições ensinadas dentro de casa, mas acredita que seu futuro está no Brasil, mesmo com as batalhas diárias que enfrenta.
“Ainda tem portas que se fecham por preconceito, mas a gente segue. Trabalha, insiste, prospera. Queremos garantir um futuro melhor para nossos filhos e netos.”
A jornalista Alba, embora compartilhe do mesmo pensamento de Carolina, avalia que não existe uma resposta única entre os venezuelanos.
“Alguns buscam apenas juntar dinheiro e voltar. Tenho uma amiga com quatro filhos esperando pelo retorno. Outros pretendem ficar no Brasil, porque se sentem em casa. Eu me sinto em casa”, declarou.
A realidade mostra que, entre discursos simplificados e opiniões diversas sobre os imigrantes e toda a situação vivida na Venezuela, existem trajetórias marcadas por desafios e reconstruções, muitas dessas acontecendo em Tubarão.
Receba outras notícias pelo WhatsApp. Clique aqui e entre no grupo do Sul Agora.