Relacionamentos não acabam apenas por causa de traições, brigas ou grandes decepções.
Alguns acabam devagar.
No silêncio.
Na rotina.
Naquela perigosa sensação de que já sabemos tudo sobre quem dorme ao nosso lado.
O tédio é o fim da intimidade porque a intimidade precisa de curiosidade.
Precisa daquele olhar que ainda pergunta:
“Quem é você hoje?”
Porque ninguém continua sendo exatamente a mesma pessoa que conhecemos anos atrás.
Mudamos.
Nossos medos mudam.
Nossos desejos mudam.
Nosso corpo muda.
Nossos sonhos mudam.
Mas muitos casais continuam se relacionando com a versão antiga um do outro.
Param de perguntar.
Param de observar.
Param de provocar.
Param de seduzir.
E, principalmente, param de conversar sobre aquilo que realmente importa.
Falam sobre contas, filhos, supermercado, trabalho, cachorro, boleto, manutenção da casa…
Mas já não falam sobre eles.
E não existe cama suficientemente grande para acomodar duas pessoas que deixaram de se encontrar emocionalmente.
O sexo também sente.
Porque desejo não gosta de obrigação.
Desejo gosta de descoberta.
Não estou dizendo que um relacionamento precisa viver de novidades mirabolantes, viagens inesperadas, lingerie nova ou acrobacias sexuais.
Às vezes a novidade é muito mais simples:
É olhar demoradamente.
É beijar sem que o beijo seja apenas o anúncio de que haverá sexo.
É mandar uma mensagem no meio da tarde.
É perguntar uma fantasia que nunca foi contada.
É rir juntos.
É sair da logística e voltar para a sedução.
Porque existe uma diferença enorme entre conhecer alguém profundamente e achar que não existe mais nada para conhecer.
A primeira coisa é intimidade.
A segunda é acomodação.
Talvez o grande segredo dos relacionamentos longos não seja impedir que a rotina exista.
A rotina vai existir.
O segredo é não permitir que ela transforme o outro em paisagem.
Quem ama também precisa continuar olhando.
Continuar descobrindo.
Continuar desejando conhecer.
Porque quando duas pessoas deixam de sentir curiosidade uma pela outra, podem continuar dividindo a casa, a cama, as contas e até a vida.
Mas alguma coisa já começou a morar longe.
O contrário do amor nem sempre é o ódio.
Às vezes, é simplesmente não haver mais nada que desperte interesse.
E talvez por isso o tédio seja tão perigoso:
antes de acabar com o sexo, ele acaba com a vontade de chegar mais perto.
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