“Quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.”
Apocalipse 3:15-16
Uso esse versículo há anos em minhas palestras porque, embora o texto bíblico não esteja falando especificamente de relacionamentos amorosos, ele traz uma imagem poderosa sobre inteireza, posicionamento e verdade.
E eu penso que essa reflexão cabe perfeitamente no amor.
Há relacionamentos que não são ruins o suficiente para terminar, mas também não são bons o suficiente para fazer alguém feliz.
E talvez sejam esses os mais perigosos.
São os amores mornos.
Não existe violência, mas também não existe carinho.
Não existe uma grande briga, mas já não existe diálogo.
Não existe despedida, mas a presença há muito tempo deixou de significar companhia.
Dormem na mesma cama, mas os sonhos já não se encontram.
Dividem as contas, a casa, os compromissos, os filhos, os problemas — e deixaram de dividir a alma.
E vão ficando.
Por costume.
Por medo.
Pela história construída.
Pelo que os outros vão dizer.
Ou pela esperança de que amanhã alguma coisa volte a ser como era antes.
Mas amor não deveria ser apenas permanência.
Quando penso nos relacionamentos perante Deus, não imagino que Ele espere casais representando felicidade enquanto vivem emocionalmente separados.
De que vale uma aliança no dedo quando já não existe aliança no coração?
De que vale defender a família diante dos outros quando, dentro de casa, duas pessoas se tratam como estranhas?
Relacionamento também exige posicionamento.
Se existe amor, que haja disposição para cuidar dele. Que haja conversa, presença, respeito, desejo de reconstrução, perdão quando possível e coragem para reconhecer os próprios erros.
Se é para amar, que seja inteiro.
Porque ninguém merece passar a vida mendigando pequenos goles de afeto dentro de uma relação que deveria ser fonte de amor.
Talvez a “mornidão” seja justamente esse lugar onde ninguém vai embora, mas também ninguém chega verdadeiramente perto.
E existem casamentos que acabam muito antes da separação.
Acabam quando o beijo vira obrigação.
Quando o abraço desaparece.
Quando conversar dá preguiça.
Quando tocar deixa de fazer falta.
Quando a indiferença ocupa o lugar onde um dia existiu desejo de cuidar.
O contrário do amor nem sempre é o ódio.
Às vezes, é a indiferença.
Por isso, quando uso esse versículo em minhas palestras, gosto de provocar:
Como está a temperatura do seu relacionamento?
Quente de presença, cumplicidade, verdade e vontade de continuar escolhendo um ao outro?
Ou morno de acomodação, silêncio e aparência?
Porque relacionamento nenhum se mantém vivo apenas porque duas pessoas ainda não tiveram coragem de terminá-lo.
Amor precisa de presença.
Precisa de verdade.
Precisa de escolha.
E, sobretudo, precisa estar vivo.
Deus não nos chamou para representar o amor.
Chamou-nos para vivê-lo.
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