Na dor da perda, você avança recuando.
Dizem que a vida continua. E continua mesmo. O sol nasce, o café esfria, as pessoas trabalham, os relógios não param. Mas quem perdeu alguém que amava sabe que existe uma parte da vida que fica parada no dia da despedida.
No luto, não existe exatamente um dia seguinte. Existem dias que se repetem dentro da gente.
Você acorda bem, sorri, faz planos, acredita que finalmente está aprendendo a conviver com a ausência. Até que uma música toca, um cheiro atravessa a memória, uma fotografia aparece sem pedir licença. E pronto. Você volta para aquele lugar onde o coração ainda não entendeu o que a razão já sabe.
Porque, na dor da perda, você avança recuando.
Há dias em que a saudade é uma lembrança doce. Em outros, é uma faca que corta sem fazer barulho.
E não adianta alguém dizer que já passou tempo suficiente. O calendário mede os dias, não a profundidade dos afetos.
O luto não é uma escada que subimos degrau por degrau. É um mar. Às vezes, a água está calma. Outras vezes, uma onda nos derruba quando pensávamos já saber nadar.
Com o tempo, aprendemos a viver de outra maneira. Voltamos a rir sem culpa, a celebrar aniversários, a fazer planos. Mas sempre haverá uma cadeira que ninguém ocupa da mesma forma, uma voz que gostaríamos de ouvir mais uma vez, um abraço pelo qual daríamos tudo.
E talvez a parte mais difícil do luto seja aceitar que o mundo não parou quando o nosso desabou.
Por isso, não pergunte a alguém enlutado se ainda está sofrendo. Pergunte como está conseguindo viver com a saudade.
Porque superar uma perda não significa deixar de sentir. Significa encontrar coragem para continuar amando alguém que já não podemos abraçar.
E, se amanhã a tristeza voltar, não pense que você regrediu.
Você apenas visitou, mais uma vez, o lugar onde o amor continua morando.
Afinal, o luto não é o contrário da vida. É o amor tentando aprender a existir na ausência.
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