Há uma diferença gigantesca entre ensinar uma criança a respeitar as diferenças e transformar a infância em campo de batalha das convicções dos adultos.
E parece que muita gente anda confundindo as duas coisas.
Antigamente, desenho animado tinha gato perseguindo rato, princesa perdendo sapato e um coiote que nunca conseguia capturar o papa-léguas. Hoje, basta aparecer um personagem diferente para começar uma guerra nas redes sociais.
De um lado, os que enxergam doutrinação em qualquer novidade. Do outro, os que parecem acreditar que toda produção infantil precisa carregar uma mensagem social.
E a criança? Ah, a criança só queria assistir ao desenho enquanto comia seu biscoito!
Sou favorável ao respeito. Sempre! Ninguém deveria ser discriminado por amar, pensar ou viver de maneira diferente.
Mas também defendo que a infância tem seu tempo, sua linguagem e seus limites.
Crianças precisam aprender sobre amizade, solidariedade, honestidade, empatia e respeito. Precisam entender que existem famílias diferentes e que ninguém merece ser humilhado por ser quem é.
Isso não exige transformar cada desenho em uma aula de ideologia, muito menos antecipar discussões que ainda não conseguem compreender.
E aqui vai uma provocação: por que alguns adultos estão tão preocupados em ensinar às crianças o que pensar, quando deveriam estar ensinando COMO pensar?
A infância não precisa ser uma extensão das disputas políticas, religiosas ou culturais dos adultos.
Precisa de imaginação, brincadeira, descobertas e liberdade para fazer perguntas.
Porque proteger a inocência não significa esconder que o mundo é diverso. Significa apresentar esse mundo com delicadeza, responsabilidade e respeito à maturidade de cada idade.
O problema não é a diversidade aparecer na tela. O problema é quando os adultos transformam a tela em trincheira.
E convenhamos: antes de querer salvar a infância de um desenho animado, seria interessante salvar nossas crianças da violência, do abandono, da negligência e da falta de educação.
Esses, sim, são problemas que não desaparecem quando desligamos a televisão.
Afinal, criança não nasceu para carregar as bandeiras dos adultos.
Nasceu para viver a infância. E isso, por si só, já deveria ser uma causa de todos nós.
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