Tudo começou às duas e meia da manhã.
Acordei com uma sensação estranha. Não era exatamente dor. Também não era paz. Era aquele estado civil emocional que toda mulher conhece: “vai que eu morro.”
Levantei da cama, fui ao banheiro, olhei para o espelho e pensei:
— Se eu morrer hoje, qual calcinha estou usando?
Pronto. A partir daí, não houve mais sono.
A primeira opção era linda. Renda preta, sofisticada, quase uma declaração de intenções.
— Não.
Vão me encontrar assim e comentar:
— Coitada… morreu querendo viver uma última emoção.
A segunda era confortável demais. Daquelas que abraçam o quadril, a barriga, os traumas da infância e ainda oferecem apoio emocional.
— Também não.
Iam dizer:
— Que tristeza… ela já tinha desistido de tudo.
A terceira tinha um furinho.
Foi eliminada imediatamente.
Porque morrer é inevitável.
Mas morrer furada é humilhação.
A quarta era delicada, estampada com pequenos corações.
— Nem pensar.
Iam concluir que eu parti esperando uma mensagem que nunca chegou.
A quinta era bege.
E existe um consenso universal de que ninguém merece atravessar os portões da eternidade usando uma calcinha bege.
Resultado?
Às três da manhã eu estava sentada no chão do quarto, cercada por calcinhas espalhadas como se estivesse montando uma exposição de arte contemporânea.
A ansiedade já tinha ido embora.
A pressão estava normal.
O coração tranquilo.
Mas eu continuava ali, analisando qual peça íntima transmitiria a mensagem correta para a posteridade.
Porque o verdadeiro problema nunca foi a morte.
O verdadeiro problema é ser mulher.
A mulher administra a própria imagem na infância, na adolescência, no casamento, no divórcio, na menopausa e, pelo visto, até no velório.
Por isso eu defendo uma causa urgente e necessária.
Deveria existir uma calcinha oficial para morrer.
Nem sexy demais.
Nem vovó demais.
Nem bege.
Nem rendada.
Nem furada.
Uma calcinha neutra, institucional, quase um uniforme.
Daquelas que, quando a pessoa te encontra, a única conclusão possível seja:
— Ela claramente não esperava receber visitas.
E, convenhamos, é exatamente assim que a maioria de nós gostaria de ser lembrada.
Receba outras colunas direto em seu WhatsApp. Clique aqui.
