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BLOGS E COLUNAS

O monstro da montanha

17/11/2021 09h05

Lembro-me que em nossa inocência de crianças, eu e duas irmãs, todos os finais de tarde, nos postávamos de frente para as grandes montanhas que circundavam a nossa propriedade. Já fazia um bom tempo que diariamente nos comunicávamos com o monstro que vivia escondido em algum ponto daqueles morros verdejantes.


Nunca conseguimos vê-lo, pois por algum forte motivo, talvez medo, o pacífico monstro se ocultava dos seres humanos em meio à densa vegetação. Com a voz firme e alta, era eu que sempre iniciava o primeiro contato: “Apareça, queremos conhecer você!”

O monstrengo nunca dava as caras, mas respondia ao meu chamado com velocidade impressionante. O mais intrigante era o fato de que ele sempre replicava com as mesmas palavras ditas por mim, somente mudava a entonação da voz. 


É claro que a minha voz era fina, como obviamente é a de um menino de seis anos. Já a voz do monstro era aguda, forte, assustadora e digna de um filme de terror.


Lembro-me de que ficamos uns três anos a tentar ver a cara da pobre fera selvagem, mas nunca conseguimos ir além da comunicação verbal que não chegava a lugar algum, pois o monstro sempre queria saber de mim as mesmas coisas que eu queria saber dele.


Quando eu dizia: Olá!, ele dizia: "Olá!". Quando eu perguntava: Tudo bem com você? Ele perguntava: "Tudo bem com você?". E assim o nosso diálogo não evoluía.

Certo dia, observando as nossas diversas tentativas frustradas, mamãe nos chamou para uma conversa, e com aquele seu modo peculiar, empírico e envolvente de revelar as coisas, os fenômenos e mistérios que acompanham o giro do mundo, nos explicou carinhosamente o que era um eco.

“Meus queridos filhos", disse ela, "o eco nada mais é do que a repetição do som que se dá pela reflexão de uma onda sonora”.

Embora eu tenha ficado admirado com a inteligência de mamãe em saber daquelas coisas difíceis, pra mim a descoberta foi uma grande decepção, pois além de perder a amizade do monstro, que na verdade nunca existiu, descobri naquele dia que repetir as palavras não é exclusividade dos papagaios...

Trecho retirado do livro "O Acolhedor de Almas", de Maciel Brognoli - disponível na Amazon.

MACIEL BROGNOLI
Crônicas e contos
Maciel Brognoli é guarda municipal de Tubarão, graduado em Administração Pública, especialista em Segurança Pública e Gestão de Trânsito e escritor. Ocupa a cadeira n° 27 da Academia Tubaronense de Letras (Acatul) e escreveu quatro livros.
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