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BLOGS E COLUNAS

O menino e as árvores que davam brinquedos

14/02/2024 11h10

Eu devia ter cerca de quatro anos de idade, talvez um pouco mais. Digo isso porque, na tenra idade, alguns meses a mais de vida fazem muita diferença para uma criança que está começando a entender como funcionam as coisas que acontecem ao redor do mundo.


Mas enfim, o importante agora é dizer que naquela tarde memorável lembro-me claramente: meu pai chegou em casa trazendo nas mãos algumas espigas de milho. Morávamos na localidade rural de Canela Grande, no interior de Pedras Grandes, então não era incomum ele chegar em casa com frutas, legumes e outras coisas que gostava de cultivar.


Fiquei curioso ao vê-lo trazendo espigas diferentes das que eu estava acostumado. Eram menores, com grãos duros, vermelhos e pequenos. Na minha infância cheia de imaginação, qualquer coisa não explicada era motivo para fantasiar. Eu acreditava que tudo, não apenas os alimentos, mas também o que tornava nossas vidas mais confortáveis e alegres surgia das árvores.


Eu pensava que carros e televisores a cores eram frutos que cresciam em árvores, mas por algum motivo não se desenvolviam no solo da minha terra. Achava injusto que em nosso quintal só crescessem pés de guabiroba, ameixas e laranjeiras, mas nenhum pezinho sequer de bolinhas de gude.


Restava-me apenas sonhar com árvores carregadas de bolas de futebol, carrinhos e bicicletas, mas essas plantações só existiam na minha imaginação. Então concluí que as sementes desses tipos de árvores deviam ser muito valiosas, e meu pai e toda gente simples da minha terra não tinham poder de compra para adquiri-las.


De toda forma, eu sabia que além do horizonte e das colinas que alcançavam a minha vista existiam povoados maiores, onde se estendiam plantações vastas de todas as coisas boas que o mundo oferece. Em algum lugar fora da minha realidade abundava tantas plantações de bicicletas, carrinhos e bolas de futebol, que apodreciam nas árvores. E nós lá, sem sequer um arbusto para colher brinquedos!


Naquele mesmo dia, mais tarde, meu pai debulhou o milho e preparou uma panela no fogão a lenha com um pouco de óleo. Jogou dois punhados daquele milho dentro da panela e logo comecei a ouvir estalos contínuos que me deixaram assustado. Após alguns minutos, o barulho cessou, ele retirou a panela do fogo e transferiu os grãos para um recipiente de plástico.


Nunca esquecerei aquela experiência mágica! Os grãos de milho entraram na panela pequenos, duros e vermelhos, mas saíram grandes, macios, brancos e saborosos. Essa foi a primeira e mais importante experiência que tive com a transformação das coisas.


À medida que o tempo avançava, percebi que minha ingênua visão de mundo se reduzia a meras ilusões. O que restou foi saber que no mundo existem pessoas privilegiadas que colhem os frutos que desejam e até podem desperdiçá-los, pois suas árvores estão sempre repletas, satisfazendo suas fomes, sonhos e desejos.


Por outro lado, a grande maioria vive na miséria, trabalhando arduamente, porém suas necessidades básicas são como árvores que produzem poucos frutos. E para piorar, os cobradores de impostos, com suas bocas vorazes e modo injusto de governar, consomem grande parte dos poucos frutos que eles conseguem produzir.


Naquele dia mágico da minha infância, valiosas lições ficaram marcadas em minha mente e coração: não devemos tolerar injustiças sociais, nem nos contentar com uma vida medíocre. 


Amigos leitores, para nós, que tivemos uma vida dura, estudar, trabalhar e buscar o autoconhecimento são como o fogo que aqueceu e transformou os grãos duros de milho em pipocas macias.



MACIEL BROGNOLI
Crônicas e contos
Maciel Brognoli é guarda municipal de Tubarão, graduado em Administração Pública, especialista em Segurança Pública e Gestão de Trânsito e escritor. Ocupa a cadeira n° 27 da Academia Tubaronense de Letras (Acatul) e escreveu quatro livros.
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