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BLOGS E COLUNAS

Livre do imprevisto, mas refém do tempo

14/01/2022 10h39

Não há lugar seguro! Nunca houve. As tragédias – preveníveis ou não – continuam a suprimir vidas por aí. A morte pode ser cruel e, com certeza, usa a criatividade e artifícios para cumprir sua lúgubre missão.

Um homem, confortavelmente deitado no sofá da sala, lia um livro. Sua esposa, na cozinha, preparava o almoço. Seu filho, no quarto, estudava para a prova de matemática do dia seguinte. O livro não foi lido até o fim, a comida não ficou pronta e o dia da avaliação escolar não chegou para o garoto. Todos perderam a vida quando a casa foi engolida por um mar de lama expelida pelo rompimento de uma barragem na localidade vizinha.

A viagem aérea seria longa e cansativa, dezenas de passageiros dormiam quando os motores do avião falharam. A aeronave perdeu altitude e explodiu quando caiu na mata atlântica de uma região isolada, transformando em sono eterno o descanso casual daquela gente.

Dia de sol. Céu bonito. Água refrescante. Várias pessoas da mesma família  passeavam de lancha no ponto turístico mais requisitado da região: os cânions da cidade mineira de Capitólio. Diversão, cantoria e a perspectiva de um dia maravilhoso em família. Mas a alegria foi reduzida a flagelo quando um enorme paredão de rocha se desprendeu da encosta e caiu em cima da lancha.


Todos nós sabemos o resultado dessa tragédia!

Ouvi dizer que uma mulher, em sua casa, assistindo o noticiário sobre a tristeza de Capitólio, assustada e perplexa, disse ao marido:


"Era pra gente estar naquele lugar justamente no dia do acidente. Tínhamos passagens compradas, hotel e passeio de lancha reservados. Deus nos livrou da morte quando usou seu patrão para cancelar suas férias. E eu... que estava com ódio dele!"

Sinceramente, eu não acredito em um Deus que me poupa de um acidente fatal mas permite que outros (inclusive crianças) ocupem o meu lugar. Seria muita vaidade da minha parte imaginar que sou especial a ponto de Deus modificar meus passos para livrar a minha cara. E se é verdade que Ele me livra e permite que outros morram no meu lugar, não posso pensar em outra coisa senão que se trata de um Deus mau.

Independentemente de crenças ou interpretações de textos biblícos, a meu ver Deus é igualmente bom com todos e não faz de seus filhos marionetes, puxando os cordéis conforme Sua vontade.

A pretensão de se considerar superior aos olhos do Onipotente é um sentimento muito mais degradante do que a própria morte.


Por outro lado, é inegável que se uma pessoa (por acaso, ou por qualquer outro motivo) perde o horário de embarque em um avião que posteriormente cai, se livra de uma tragédia.


E se isso acontece a qualquer um de nós, podemos até nos considerarmos um milagre, mas seria ininteligente e cruel expormos nas redes sociais a suposta preferência de Deus por nós. Lembrem-se, no mesmo instante em que felizes comunicamos por aí a notícia que somos merecedores de uma vida longa e abençoada, os familiares das vítimas que não tiveram o suposto "livramento" choram seus mortos.

O pós-tragédia é o momento de nos colocarmos emocionalmente no lugar dos familiares das pessoas que perderam a vida, não de espalhar aos quatro ventos o quanto hipoteticamente somos protegidos pelo dono do mundo.


O próprio Deus não se agrada disso!


E não esqueçamos, o tempo não poupa ninguém.

MACIEL BROGNOLI
Crônicas e contos
Maciel Brognoli é guarda municipal de Tubarão, graduado em Administração Pública, especialista em Segurança Pública e Gestão de Trânsito e escritor. Ocupa a cadeira n° 27 da Academia Tubaronense de Letras (Acatul) e escreveu quatro livros.
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