A Vida que Ninguém Vê conversou com o senhor Sebastião Aurélio Marcos. Aposentado, aos 72 anos, ele cultiva há meio século um hábito digno de aplausos: alimentar cães de rua.
Quando morava em Florianópolis, chegou a acolher 19 cães resgatados das ruas em sua casa. Hoje vive apenas com um cãozinho e uma gatinha, pois retornou a Tubarão para ficar mais perto e cuidar da irmã, que já ultrapassou os 80 anos.
Todos os dias, o senhor Sebastião vai até a Praça da Igreja São José levando ração, água e sobras de comida para os cães que vivem naquela região. Eles conhecem seus passos. Quando ele chega, já estão à espera, abanando o rabo como quem reconhece um velho amigo.
Segundo ele, não está sozinho nessa missão. Outras pessoas também ajudam. Alguns levam cobertores nos dias frios, outros oferecem alimento e carinho. Quando algum cachorro aparece ferido ou debilitado e precisa de atendimento veterinário, os voluntários fazem uma pequena arrecadação para custear o tratamento.
Durante a conversa, o senhor Sebastião contou uma história que nunca esqueceu.
Em São José, segundo contou, o sogro de sua filha estava parado dentro do carro quando foi abordado por um assaltante armado. O ladrão apontou um revólver e exigiu que ele entregasse tudo. Nesse instante, um cãozinho de rua que presenciou a cena correu em defesa daquele homem. Mordeu repetidamente a mão do assaltante, obrigando-o a recuar.
O desfecho foi triste. O ladrão atirou e matou o cãozinho. Mas, assustado com o ataque inesperado, desistiu do assalto e fugiu. Aquele cachorro não conhecia o homem que protegeu. Mas, de alguma forma, percebeu o perigo e não hesitou em agir.
Talvez seja justamente essa fidelidade desinteressada dos cães que faça o senhor Sebastião levantar todos os dias para cuidar deles. Como ele mesmo resume, com a simplicidade de quem faz o bem sem esperar reconhecimento:
“Não dá para abraçar o mundo, mas eu faço o que posso.”
Obrigado, senhor Sebastião, por fazer da bondade um hábito e por nos lembrar que ela ainda existe.
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