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BLOGS E COLUNAS

O bode do escândalo

21/07/2021 08h52

Dizem que há muitos anos, numa região muito pobre, um lavrador vivia com a enorme família numa casa minúscula, quase em ruínas. Um dia, ele se queixou ao padre da aldeia da vida que levava: além de tudo, a família toda vivia reclamando das más condições e do pouco espaço da casa. Mas como mexer nisso, sem dinheiro? O padre o aconselhou: leve seu bode para dentro de casa e daqui a uma semana vamos conversar. O lavrador obedeceu. E na semana seguinte voltou dizendo que tudo estava muito pior: o espaço tinha diminuído, o bode destruía o que podia e ainda cheirava pior que as histórias de compra de vacinas. O padre lhe disse: tire o bode de dentro da casa. Dois dias depois, o lavrador agradeceu ao padre: sem o bode na sala, todo mundo estava mais feliz, se sentia melhor, e as queixas tinham virado elogios.


Essa história de o fundão eleitoral passar de R$ 2 bilhões (o que já é fora de propósito) para R$ 5,7 bilhões não é igualzinha a botar o bode na sala? O presidente veta R$ 5,7 bi, se acertam todos em algo como R$ 4 bi, e todos ficam felizes: Bolsonaro fatura o veto, Suas Excelências comem o dobro da já enorme verba de campanha, e haverá quem acredite que o presidente que come picanha de R$ 1.700,00 o quilo por nossa conta defendeu o Tesouro.


O gasto público na campanha eleitoral brasileira já é o maior do mundo, isso antes do bode na sala. Como diria Dilma Rousseff, alcançada esta meta, dobramos a meta. E continuamos trabalhando para alimentar pançudos.


De ponta a ponta


Quando se trata de sugar mais dinheiro da população, ideologia deixa de ser importante: deputados que adoram Lula e deputados que amam Bolsonaro votaram juntos para triplicar as verbas de campanha. Farinha do mesmo saco. Condenarão a tunga, embora tenham votado por ela. Aceitarão com ar de sofrimento, em nome do interesse nacional, a falsa redução de verbas que representará, na verdade, o dobro daquilo que já mamam.


Senhor juiz: pare agora!


A única solução para a indecente situação do financiamento de campanha é o pedido já feito ao Supremo para que suspenda o escândalo. Espera-se que o ataque a nossos bolsos vá contra a lei. Ou a politicalha vai tomar o nosso.


Em poucas palavras


O Fundo Eleitoral é o dinheiro que Excelências tomam dos cidadãos para decidir quem ocupará os cargos que lhes permitirão continuar a tomá-lo.


Clima tempestuoso


Por sorte, boa parte dos ministros do Supremo cansou dos ataques diários de Bolsonaro e dos pigmeus armados que acreditam que o Mito seja mesmo um Fantasma imortal. O ótimo colunista Aziz Ahmed, do jornal O Povo, diz que, se algum parlamentar solicitar ao Supremo que ordene a Arthur Lira, o presidente da Câmara, que deixe de reter os pedidos de CPI que cumpram as exigências legais, será atendido. Chegou a hora do pau nas rachadinhas.


Esquentando o confronto


Os principais países do Ocidente acabam de acusar a China de acobertar uma campanha mundial de ataques a computadores de outros países. Quem acusa: Estados Unidos, Otan (aliança militar ocidental), Austrália, Japão, Reino Unido, Nova Zelândia e Canadá. A linguagem é dura, pouco comum nos meios diplomáticos: “O Ministério de Segurança do Estado da China tem estimulado um ecossistema de hackers criminosos que realizam atividades patrocinadas pelo Estado e também cometem crimes digitais para seu próprio lucro”. Diz o secretário de Estado americano Anthony Blinken: “Isso é uma grande ameaça para nossa economia e segurança nacional”.


O objetivo chinês, diz a aliança ocidental, é roubar segredos industriais e informações confidenciais em Aviação, Defesa, Educação, Produção Naval, Governo e Biomedicina, em países como Alemanha, EUA, Suíça, Arábia Saudita, Áustria, Camboja, Indonésia, Reino Unido, Noruega e Malásia.


O tamanho da encrenca


Foi por acusações parecidas que uma diretora da Huawei, a líder chinesa e mundial em telecomunicações, foi presa no Canadá a pedido dos EUA. Além de diretora importante, é filha do fundador e presidente da Huawei, a empresa que disputa com empresas ocidentais a implantação de redes 5G. Essas disputas dificilmente são limitadas: em geral, associam-se a embargos, bloqueio de bens de empresas e diretores, bloqueio de novas encomendas.


Boa notícia


O governo paulista divulgou ontem decreto prevendo emissão zero de gases de efeito estufa (que, de acordo com estudos internacionais, provocam o aquecimento global) até 2050. Com isso, o governador João Doria alinha o Estado ao esforço mundial para evitar variações abruptas de clima, capazes de provocar tragédias como desertificação de áreas férteis e inundações. São Paulo é a primeira entidade federativa do Brasil e da América Latina a se unir ao esforço dos países desenvolvidos para enfrentar a mudança de clima.

CARLOS BRICKMANN
Chumbo Gordo
Carlos Brickmann - carlos@brickmann.com.br - é Escritor, Jornalista e Consultor, diretor da Brickmann & Associados Comunicação - www.brickmann.com.br. Siga: @CarlosBrickmann.
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