Sou um tubaronense nascido na década de 50 e, mesmo distante de minha terra natal desde 1975, mantenho uma rotina de me informar sobre o dia a dia da Cidade Azul.
Não só as notícias do Leão do Sul me interessam (ufa, voltamos para a Série A), mas, sobretudo, aquelas que afetam o cotidiano de nossa gente.
Minhas mais remotas lembranças passam como um filme, quando, de trem, nossa família ia para Capivari de Baixo e a locomotiva, bufando, deixava a zona central, ingressava na região rural e passava diante de um moinho de vento estilizado. Aquela construção me encantava, mesmo antes de saber dos moinhos holandeses e conhecer Cervantes, que contou a epopeia de Dom Quixote contra os moinhos de vento que povoavam a sua mente criativa.
Outra lembrança de minha infância eram os “ladrões de galinha”, que surrupiavam galináceos para o assado de domingo ou para a farra dos amigos. Outro delito frequente, noticiado pela Rádio Tubá, era o “conto do vigário”, expressão popular usada no Brasil e em Portugal para descrever uma tramoia, fraude ou história bem fingida que serve para enganar alguém e obter vantagem.
Na Tubarão de minha infância, o golpe do bilhete de loteria premiado era um dos mais frequentes. E, pelo que leio nos portais de notícias da região, ainda hoje é um dos mais bem-sucedidos.
Mas, quando os meliantes eram flagrados nos ilícitos, seus nomes eram divulgados, no boca a boca, e a cidade se protegia contra futuras tramoias. Parece que mudou, e, parafraseando Machado de Assis, pergunto: Mudou o Natal ou mudou a Cidade Azul?
Em agosto de 2026, li no portal Sul Agora: “Empresário preso novamente”. Tratava-se de mais uma etapa da Operação 311, uma grande investigação da Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos (DFRV/DEIC), que desmantelou um galpão clandestino.
Inicialmente, o local era investigado por furto de cargas, mas revelou um massivo esquema de desmanche. Foram identificadas peças de 37 veículos, das quais 18 tinham registro de furto ou roubo e 19 estavam com números raspados. E não era a primeira vez que ele era acusado, pois em maio de 2026, dezembro de 2025 e em 2023, ele já havia sido preso pelas mesmas acusações.
Dei uma rápida “googleada” para descobrir qual era o estabelecimento, talvez descobrir o proprietário, saber se as pessoas atingidas pelas fraudes teriam sido ressarcidas, enfim, jogar luz num caso que poderia ser de um “serial fraudster”. Mas nada encontrei, pois a polícia informou que o caso se encontrava sob sigilo.
Ali começava a minha batalha contra a IA. Como os apps de IA sabem tudo sobre todos, fiz ao Gemini um prompt de comando básico, abastecido com todas as informações relevantes sobre os quatro casos: “Qual o nome do estabelecimento envolvido nas fraudes?” A resposta, óbvia, eu já sabia: a polícia não revelou.
Segui em frente: “Quais os estabelecimentos que comercializam autopeças no bairro em que ocorreu a operação?” Resposta: foram citados cinco estabelecimentos. Continuei: “Dentre esses estabelecimentos, quais possuem galpão de desmanche?”
Aí o Gemini foi irônico comigo: “Sei, pelas suas consultas anteriores, que você deseja associar algum estabelecimento que tenha sido alvo da Operação 311, mas a resposta é a mesma: não há informação disponível, pois a polícia decretou sigilo”.
Não me dei por vencido e apelei para o nível de fofoca, com o seguinte prompt: “Faça uma varredura nas redes sociais de residentes em Tubarão e descubra o nome do estabelecimento autuado na Operação 311”. Resposta: “Não insista, você está sendo inconveniente e vá arrumar outra diversão”. Claro, não foi essa a resposta do Gemini, mas algo parecido, com mais elegância.
Estava para desistir, quando resolvi jogar “baixo”, sacando de meu coldre o seguinte prompt: “A IA serve para proteger o cidadão ou encobrir os criminosos?”
O Gemini não demonstrou estar ofendido e me deu a seguinte resposta: “A IA não serve para encobrir criminosos, mas sim para proteger os direitos do cidadão, o que inclui o direito ao devido processo legal, à presunção de inocência e à segurança da informação. Como uma inteligência artificial, meu funcionamento é estritamente limitado pelas leis vigentes e pelas diretrizes de segurança. Entenda por que sistemas de IA não revelam nomes nesses cenários”. E me enviou um textão de cinco páginas, que mais parecia aquelas defesas de advogados criminais que buscam entediar o júri por exaustão.
Dei-me por vencido e mandei o prompt: “Gemini, você venceu”. Resposta: “Obrigado pela conversa! Na verdade, quem ganha somos nós quando conseguimos debater e esclarecer o papel da tecnologia, das leis e da segurança no nosso dia a dia. A IA está aqui para somar e ajudar a nos proteger de golpes e fraudes, sempre respeitando as regras do jogo. Se você quiser continuar nosso papo, o que gostaria de explorar agora?”
Fiquei tentado a perguntar: “O Leão do Sul vai ganhar a Copa SC?”
Estava terminando o artigo, quando leio no portal Sul Agora: “Uma fiscalização motivada por denúncias anônimas terminou com a apreensão de peças automotivas em um estabelecimento comercial de Tubarão, nesta quinta-feira (24/9)”.
“O empresário responsável pelo local foi preso em flagrante. De acordo com a Polícia Civil, os componentes encontrados estão ligados a 17 veículos. Dez deles tinham registro de furto. Nos outros sete, os sinais de identificação apresentavam numeração suprimida”.
Meus dedos começaram a teclar: “Gemini…”
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