A absolvição tardia pela Justiça Federal de seis réus da Operação Ouvidos Moucos, comandada pela delegada Érika Marena, confirma que o trágico suicídio de nosso irmão, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, ex-reitor da UFSC, foi provocado por um massacre reputacional sem provas.
Eu e meu irmão caçula, Júlio Cancellier, durante esses quase 10 anos, lutamos todos os dias para mostrar à sociedade o que nós tínhamos certeza: Cau sempre foi inocente.
Em 31 de julho, o juiz federal Nelson Gustavo Mesquita Ribeiro Alves extinguiu a ação penal, concluindo o óbvio: o Ministério Público Federal nunca teve elementos para sustentar as graves acusações de desvio de R$ 80 milhões na Educação a Distância (EaD) do Programa Universidade Aberta do Brasil.
A verdade jurídica prevaleceu, mas o preço cobrado pela injustiça foi a própria vida de um dos intelectuais mais respeitados de Santa Catarina.
Nascido em Tubarão, em 13 de maio de 1958, Cau foi um jornalista respeitado e atuou na assessoria parlamentar do senador Nelson Wedekin durante muitos anos. Voltou à UFSC com 40 anos para concluir a sua graduação em Direito e na mesma UFSC realizou seu Mestrado e Doutorado, ingressando logo depois como professor concursado e tomando posse como reitor em 2016.
O calvário de Cancellier começou em 14 de setembro de 2017, durante a Operação Ouvidos Moucos. Em uma época marcada pelo espetáculo punitivo e pelo abuso de prisões preventivas, o reitor foi submetido a uma humilhação desproporcional.
Ele foi algemado, acorrentado pelos pés e trancado em um presídio de segurança máxima, sob a frágil alegação de que obstruiria as investigações. O linchamento público foi imediato. Sem qualquer direito à presunção de inocência, manchetes nacionais carimbaram sua face com o rótulo infame de "líder de quadrilha". As paredes da UFSC foram pichadas com uma frase ignominiosa, indelével: “Cancellier, devolva os 80 milhões que você roubou”
Libertado no dia seguinte, Cau sofreu o golpe de misericórdia institucional: o banimento definitivo do campus da UFSC. Para um homem que dedicou mais de duas décadas à docência e à defesa da universidade pública, ser proibido de pisar no local que era sua extensão vital provocou um sofrimento dilacerante.
O isolamento e a vergonha infligidos pelo aparato estatal destruíram sua paz e sua honra.
Em 2 de outubro de 2017, incapaz de suportar o peso de uma acusação caluniosa e o julgamento sumário das ruas, o reitor tirou a própria vida. No bolso de seu moletom, um bilhete resumia a dor insuportável da injustiça: "Minha morte foi decretada quando fui banido da universidade". Seu ato extremo não foi uma confissão, mas um protesto trágico e definitivo contra a tirania do espetáculo judicial.
Para nós, eu, Júlio e toda a família, além de cada alma que escolhe caminhar pela decência e pela democracia, o que você nos deixou não foi o eco de um desespero. Foi o brado legítimo da indignação. Afinal, silenciar quando a lama da desonra tenta manchar o manto de um inocente não é uma opção; é abrir mão da nossa própria humanidade.
Obrigado, Cau. Sua postura não foi um adeus, mas uma lição eterna de altivez.
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