O ano de 2026 marca os 80 anos do início das operações da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Gigante da industrialização do país iniciada no governo de Getúlio Vargas, que urbanizou e colocou o Brasil entre as maiores economias do mundo, designou um papel central ao território Sul catarinense no desenvolvimento do país.
Com a criação da CSN em Volta Redonda (RJ) em 1941, o carvão mineral da região de Criciúma passaria a ser utilizado para a produção do aço.
Com alto teor de rejeito, esse carvão necessitava de beneficiamento antes de ser encaminhado à fábrica através do Porto de Imbituba, por onde chegava pela já estabelecida Ferrovia Tereza Cristina.
Assim, o território de Capivari de Baixo foi escolhido para a instalação do Lavador de Carvão da CSN.
Entre 1942 e 1946, período das obras, cidades foram criadas do completo zero ao longo da ferrovia, outras tiveram um salto de desenvolvimento nunca mais alcançado: estradas, saneamento básico, casas, indústria, comércios, equipamentos de lazer, escolas, etc. Tudo construído em diversos municípios em apenas quatro anos.
Mas com a chegada de Fernando Collor à presidência do país em 1990 e o pleno estabelecimento da agenda neoliberal, que indicava a desregulamentação da economia, abertura de mercado e outros corolários em direção à menor interferência possível do Estado na economia, a CSN foi uma das primeiras empresas estatais a ser privatizada.
A venda veio junto com a desobrigação de compra do carvão mineral nacional, o que levou ao fechamento do Lavador e da ICC, já que o carvão inglês era menos custoso para a CSN privada.
É a partir daqui que se inicia o desmonte industrial e da nossa capacidade de desenvolvimento: o uso do carvão mineral sul-catarinense gerava um avançado processo de encadeamento da economia com centenas de obras urbanas, empregos com boas médias salariais e, logo, um comércio mais próspero e serviços de qualidade que tornavam tudo muito mais barato, mas apenas o Estado possuía a capacidade de promover esse interesse social.
Se 80 anos atrás construímos cidades do zero em prazos curtíssimos, 36 anos depois da ascensão neoliberal, do tal “Estado mínimo”, as cidades do Sul catarinense seguem perdendo a capacidade de resolução de problemas urbanos: desde buracos nas estradas que demoram meses a serem resolvidos, até falta de medicamentos básicos, hospitais lotados, escolas precárias e mesmo a volta de problemas com enchentes.
Para piorar, em nível local essa ideologia foi e é amplamente abraçada por partidos bastante enraizados na corrupção regional: executam essa agenda a partir da terceirização do serviço público, em que seus aliados formam empresas para prestar os (péssimos) serviços e, assim, retiram o dinheiro das contas públicas para contas pessoais, facilitando a corrupção. Não à toa, estão afundados em casos de prisões envolvendo serviços públicos.
Os milhares de trabalhadores desempregados com o fim do Lavador da CSN e da ICC e suas gerações posteriores têm se realocado nos setores de comércio e serviços, que, além de oferecerem menores médias salariais e terem menor potencial de geração de empregos, ainda enfrentam altos índices de informalidade na região.
Mas, mesmo nesse decadente processo, a região ainda proporciona boa qualidade de vida quando comparada à grande parte do Brasil. Por isso, tem sido centro de fluxos migratórios que são utilizados por grupos políticos como justificativa para os problemas urbanos, evocando o ódio contra essas pessoas, que frequentemente se materializa em casos de preconceito na região.
Fogem do debate central: a decadência urbana e econômica do Sul catarinense se dá pela sua desindustrialização, que teve início a partir da adoção da agenda neoliberal pelo Estado brasileiro.
Portanto, para voltarmos às antigas taxas de crescimento, necessitamos lutar pela reindustrialização do Sul catarinense em consonância com a reindustrialização brasileira.
Num país e numa região altamente urbanizada, erguer a bandeira do Estado enquanto financiador da reindustrialização é praticamente obrigatório para voltarmos a gerar empregos de qualidade, sairmos da estagnação urbana e expandirmos a garantia de direitos aos cidadãos.
Se o carvão mineral foi a riqueza econômica que elevou o nosso desenvolvimento, hoje nossa principal riqueza é toda a infraestrutura desenvolvida por esta atividade: estradas, universidades, escolas técnicas, portos e outras estruturas que estão ociosas, prontas para receberem um novo ciclo industrial.
Mas, infelizmente, o neoliberalismo tornou-se normalizado no debate político brasileiro.
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